A máscara do sagrado nas eleições de 2026
Por Pedro Verbeling, estudante de Economia na UFVJM e militante da UJC. Publicado na revista Aurora Operária, de Ipatinga (MG).
Caminhamos para as eleições de 2026 sob uma névoa densa. O debate público, antes pautado por divergências sobre o desenvolvimento nacional, foi sequestrado por uma encenação permanente de pânico moral. O que vemos agora é uma guerra espiritual fabricada. Ao transformar a urna em altar, a extrema-direita brasileira opera um sofisticado estelionato simbólico, utilizando a gramática sagrada para interditar o pensamento crítico e paralisar a indignação das massas. Quando um projeto de poder veste a roupagem da vontade divina, o opositor deixa de ser um adversário político para se tornar um inimigo da religião. É uma estratégia de dominação ideológica que pinta forças revolucionárias como ameaças fictícias, apenas para amedrontar quem luta pela verdadeira emancipação humana.
Não nos enganemos. Esse cenário não nasce espontaneamente nas comunidades. Ele é fruto de um projeto calculado por lideranças que profissionalizaram a fé para servir aos interesses da burguesia. Usam temas morais como cortina de fumaça para abafar a demanda real por direitos e pela ruptura com esse modelo de exploração. Dentro dos templos, a esperança dos despossuídos virou moeda de troca. Gestores do sagrado operam um verdadeiro balcão de negócios, leiloando a devoção popular por isenções tributárias e cargos estratégicos no Estado. Ignorar esse avanço das cúpulas sobre a política é permitir que os articuladores do púlpito sigam dominando a consciência nacional sem contestação.
Precisamos derrubar a mentira de que as organizações revolucionárias são inimigas da fé. Pelo contrário. O respeito à consciência individual de cada trabalhador é valor central para quem busca transformar a sociedade. A crítica nunca é à fé ou à sua oração, mas ao gabinete onde o sagrado vira mercadoria e a Bíblia, ferramenta de exploração de classe. O problema são as pessoas mal-intencionadas que instrumentalizam a esperança do povo visando lucro e controle social.
"precisamos derrubar a mentira de que as organizações revolucionárias são inimigas da fé"
O uso da teologia como anestesia social é flagrante. Esses articuladores do discurso messiânico aliaram-se aos grandes monopólios para manter a classe trabalhadora sob cabresto. Enquanto instigam o povo a vigiar pautas abstratas na internet, a realidade da fome e do desemprego segue intocada por quem detém o capital. A extrema-direita diz proteger a família, mas parasita o trabalho invisível das mulheres da periferia, que sustentam lares sozinhas diante dos cortes do ajuste fiscal. É um projeto marcado pela hipocrisia, onde pregam a palavra de Deus, mas apoiam o latifúndio que devasta a natureza e o agronegócio que envenena a mesa do povo, ignorando que cuidar do mundo e produzir comida saudável é, sim, uma missão sagrada.
Resgatar o Estado laico não significa atacar a fé, mas proteger a democracia e a organização popular de quem sequestra a crença alheia para manter privilégios. É urgente desmascarar esses candidatos e seus financiadores para enxergar quem realmente lucra com a miséria. Somente separando a política da manipulação religiosa poderemos voltar a discutir o urgente: comida no prato, justiça no campo e trabalho digno. Que a fé volte a ser refúgio de esperança para os oprimidos, e que o voto seja instrumento de consciência contra quem tenta usar a crença popular como degrau para o poder.
Afinal, se eles pregam que o Reino de Deus pertence aos pobres, por que lutam com tanta fúria para garantir que o paraíso das elites continue intacto aqui na Terra?
- Editoriais
- O Jornal