“Conselho da Paz”: a cereja do bolo da hipocrisia imperialista

Por Fábio Bezerra - Professor de Filosofia no CEFET-MG, presidente do SINDCEFET-MG , membro do Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino de MG e do Comitê Central do PCB.

Nunca haverá paz e prosperidade enquanto houver subjugação da autodeterminação do povo palestino e enquanto o respeito à soberania nacional e popular na Palestina não for devidamente estabelecido com a constituição de um Estado autônomo frente à intervenção política e à ocupação criminosa israelense nos territórios palestinos.


No último dia 22 de janeiro, Donald Trump anunciou em sua rede social a proposta de constituição de um “Conselho de Paz” para dar sequência às etapas de negociação de “fim dos conflitos” entre o Estado sionista de Israel e o Hamas e a reconstrução da Faixa de Gaza.

O “Conselho de Paz” implicaria na composição de diversos governos e personalidades previamente convidados por Trump, com destaque para o assento de empresários ligados ao setor imobiliário dos EUA e ao setor financeiro e, entre outras condições, o depósito prévio em um fundo específico, de cerca de 1 bilhão de dólares, para que os países tenham assento “permanente”, assegurado neste “Conselho”.

Além disso, o estatuto prevê que o comando deve estar subordinado ao governo dos EUA, que teria poder de veto e de desempate nas possíveis votações e que Donal Trump, mesmo após deixar a Casa Branca, continuaria com assento vitalício no “Conselho”.

É importante ressaltar que nas tratativas que estabeleceram essa proposta de “Conselho de Paz” não houve nenhuma consulta prévia à Autoridade Palestina, tampouco ao conjunto das organizações que compõem o movimento de resistência palestina, ou mesmo à Liga dos Estados Árabes, composta por muitos países que são aliados dos EUA na região do Oriente Médio.

O que está por trás dessa manobra de Trump é muito mais do que constituir um novo organismo internacional que possa mediar conflitos na região do Oriente Médio e promover a reconstrução da Faixa de Gaza, em substituição ao papel que poderia ser atribuído à Organização das Nações Unidas (ONU) por exemplo.

Esse modelo de Conselho visa alterar qualquer possibilidade de multilateralismo nas relações internacionais, envolvendo conflitos que em sua ampla maioria, são a expressão dos choques de interesses econômicos entre as grandes potências capitalistas e que nesse momento de crise do imperialismo estadunidense, tenta ser legitimado como uma estratégia de autoafirmação geopolítica dos interesses estadunidenses.

Uma estratégia, diga-se de passagem, extremamente cínica e hipócrita, quando apresenta o governo Trump como paladino do compromisso da busca da paz entre os povos!

Por sua vez, para além das encenações falaciosas, o governo Trump opera com outras estratégias, muito mais hostis e que revelam a essência neocolonialista no plano externo e neofascista no plano interno, preponderante em seu governo.

A nova era da “Pax Americana” de Trump não coaduna com os fatos recentes de um governo que age sob o cajado da beligerância interna e externa ressaltando os mais variados tipos de ações agressivas.

Podemos destacar em âmbito internacional, como exemplos, as chantagens de anexação forçada envolvendo a Groenlândia, a imposição de tarifas alfandegárias entre países – com evidente finalidades de imposições geopolíticas-, o artifício de falsas acusações para a justificativa de bombardeios, invasões de países e sequestros de chefes de Estado e toda sorte de arbitrariedade, como aconteceu recentemente com Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores em território venezuelano. Em âmbito nacional, a crescente escalada de desrespeito aos direitos humanos, sob a sombra da cruzada moral contra o “inimigo interno” com a perseguição de imigrantes (em especial latino-americanos),  promovido pela  Immigration and Customs Enforcement’s (ICE em inglês) – a gestapo de Donald Trump – , com detenções, prisões e deportações abusivas!

A presença de empresários do setor imobiliário e financeiro deixa às claras a intenção de retomar o projeto de expansão da especulação imobiliária e de negócios que esse “Conselho” de fachada poderá representar no futuro, com suposto aval da opinião pública, para legitimar a arbitragem mundial, em nome da paz, da lógica intervencionista e neocolonialista dos EUA e consortes nas significativas e lucrativas oportunidades de investimentos que se abrem.

Os EUA e, em especial, o governo Trump, são os últimos em condições morais de se autoproclamarem os defensores da paz mundial!

Só no século XX os EUA estiveram ligados diretamente a mais de 65 conflitos armados em todo o mundo, apoiaram dezenas de golpes de estado, sobretudo na América Latina, promoveram assassinatos de chefes políticos, sequestros, além de serem os maiores exportadores de armas do planeta, diga-se de passagem, uma das principais indústrias do país e financiadora generosa de campanhas presidenciais tanto de democratas quanto de republicanos.

O massacre na Palestina ocupada, que ocorre há mais de 77 anos e que se intensificou desde 2023 em um abominável genocídio que assassinou mais de 70 mil palestinos, em sua ampla maioria mulheres e deixou até aqui mais de 300 mil vítimas com múltiplas sequelas, foi apoiado historicamente e financiado pelos governos estadunidenses.

Infelizmente, diante do descalabro da ONU e da impotência da Liga das Nações Árabes para pressionar Israel a por fim em sua máquina de holocausto, temos assistido a algumas manifestações feitas recentemente pela Autoridade Palestina ao governo brasileiro, exortando uma possível participação no suposto “Conselho da Paz”. Na perspectiva de equilibrar a correlação de forças nesse espaço proposto, criam uma ilusão perigosa e ratificam um engodo político que não deve ser considerado como a única alternativa possível ao povo palestino nesse momento.

Nunca haverá paz e prosperidade enquanto houver subjugação da autodeterminação do povo palestino e enquanto o respeito à soberania nacional e popular na Palestina não for devidamente estabelecido com a constituição de um Estado autônomo frente à intervenção política e à ocupação criminosa israelense nos territórios palestinos.

Um suposto “Conselho de Paz” que é capitaneado por um governo que promove e ao mesmo tempo parasita a instabilidade geopolítica mundial para lucrar com os juros e dividendos políticos das crises estabelecidas, nunca terá como meta romper com o sistema que ele mesmo criou e alimentou durante décadas para manter um enclave de suas pretensões imperialistas na região. E esse enclave se chama Israel, protagonista do maior etnocídio recente da história.

Trump usa os horrores promovidos pelo sionismo com a cumplicidade dos EUA e diversos governos europeus e árabes na Palestina, para justificar seu intento de erigir um “novo” organismo de relações internacionais, que justifique o establishment para a legitimação diplomática de uma nova ordem mundial sob seu controle.

Como vemos, são muitas as limitações desse propalado “Conselho da Paz” assim como as contradições não nos deixam a menor sombra de dúvidas que estamos diante de um embuste pseudo-diplomático, que pretende se consolidar na base das bravatas e do oportunismo dos negócios, para se autoafirmar como um novo organismo de relações internacionais na tentativa de salvar a perspectiva de unipolaridade estadunidense e a reafirmação de sua lógica imperialista.

O governo Lula, caso aceite o convite ou especule qualquer negociação para “alterar” termos no estatuto dessa confraria de Trump, cometerá um erro histórico, endossando uma farsa que mimetiza princípios e valores que inspiraram a criação da ONU após a 2ª guerra, desgastada entre outras razões pelo próprio descrédito e desrespeito que os EUA e seu aliados sionistas sempre deram a essa instituição, para agora tentar apresentar uma “nova” solução que representa a velha lógica cíclica da ordem do Capital: guerras, expansão e lucro!

São tempos muito difíceis e quanto a isso não há dúvidas. E é em momentos como esses de tormenta e cenários miseravelmente desafiadores que as “ofertas” dos mascates da esperança consentida se apresentam perante a opinião pública, mitigando suas benesses nos elixires da nova vida, que prometem a cura do mal!

A contradição central desse teatro de encenações é que estamos diante de rearranjos manipulados pela lógica sistêmica do imperialismo estadunidense, em uma fase reativa que tem operado em várias frentes e sem pudor algum fazendo-se valer de todos os tipos de meios para se impor. Esse cenário nos tem revelado mudanças diversas na forma como se estruturou até aqui o arranjo político e diplomático entre as grandes nações capitalistas pós 1991, sem, contudo, alterar a dinâmica em curso das contradições inerentes ao modo de produção capitalista.

Isso nos ajuda a entender vários dos aspectos desse contexto atual, os cenários de crises e até mesmo a ascensão do neofascismo sob diversas formas e em diversas partes do mundo.

Por sua vez, a questão central continua e mesma, ou seja, o rearranjo do equilíbrio de forças é a expressão do limite de interesses expansionistas das grandes potências, traduzido em áreas de influência, mercados, acesso a recursos naturais e garantia de lucratividade e poder. Essa conta não fecha em se tratando da situação palestina – agravada com o genocídio – e que nesse momento está sendo oportunistamente utilizada como pano de fundo para um arcabouço que possui pretensões maiores de reprodução da mesma lógica de destruição e imposição imperialista.

Todos desejamos a paz, mas não a paz dos senhores, subordinada e consentida por parâmetros de dominação de um sistema que possui estrutura e dinâmica contrárias a qualquer emancipação humana frente a essa ordem imposta.

Em nome da paz é necessário mantermos a crítica à ordem do Capital, suas diversas facetas que vão se emaranhando para sustentar sua morfologia de opressão, exploração e morte. Em nome da paz é necessário denunciar a farsa e os reais interesses em torno dessa falácia chamada de “Conselho da Paz” que representa as perspectivas imperialistas de Trump e sua trupe de investidores capitalistas. Em nome da paz é necessário continuarmos nas fileiras da solidariedade aos povos em luta contra a ordem do Capital em especial ao heroico povo palestino, buscando formas diversas de fortalecer os laços econômicos, acadêmicos, culturais e humanitários com a Palestina.

A luta pela paz mundial só será possível sob outra perspectiva de sociedade e só será conquistada se combatermos diuturnamente as estruturas de poder e a dinâmica da ordem do Capital onde o imperialismo é uma das formas de sua manifestação.

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