Depois de 64 anos, área onde surgiu as Ligas Camponesas na Paraíba é regularizada; assentados homenageiam Elizabeth Teixeira

Depois de 64 anos, área onde surgiu as Ligas Camponesas na Paraíba é regularizada; assentados homenageiam Elizabeth Teixeira

Por: O Poder Popular · MST celebrou os decretos do governo e chamou a medida de “simbólica” | Crédito: Evaristo Sá/AFP

Lorenzo Santiago para o Brasil de Fato

Assentados irão substituir monocultura por agricultura familiar na antiga fazenda Antas, onde morreu João Pedro Teixeira


Depois de 64 anos de luta, 21 famílias da Paraíba conquistaram o Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, na Fazenda Barra das Antas. A regularização do território foi formalizada pelo Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar na quinta-feira (5). A área está localizada na fazenda Antas, entre os municípios de Sapé e Sobrado, Zona da Mata paraibana, e é berço das Ligas Camponesas na região.

Com 133,4 hectares, a entrega do assentamento é resultado de uma luta que se arrasta há mais de 6 décadas. João Pedro Teixeira era um dos dirigentes das Ligas Camponesas no Sapé. Ele foi assassinado em 1962 e sua esposa, Elizabeth Teixeira, assumiu a liderança do movimento, lutando pela reforma agrária na região. Toda essa trajetória foi registrada no filme Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, lançado em 1984.

nome do assentamento faz uma homenagem à Elizabeth, que completou 100 anos em 2025. A uma semana de completar 101 anos, ela esteve no evento de formalização das terras e celebrou a conquista: “viva a reforma agrária”.

A partir da publicação da portaria pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) será feito o processo de seleção para incluir as famílias como beneficiárias do programa de reforma agrária. 

Ao longo do tempo, o núcleo do Sapé das Ligas Camponesas, chegou a ter cerca de 10 mil integrantes. Elizabeth chegou a perder filhos e foi perseguida pela ditadura militar. Em 1964, teve sua casa incendiada e passou oito meses presa em um quartel do exército. Ao sair da prisão, ela continuou a ser vigiada pela ditadura e assim foi orientada por companheiros de luta a buscar exílio no Recife. Encontrada pela polícia em diversas casas onde tentava se refugiar, conseguiu se esconder no Rio Grande do Norte.

A luta na fazenda Antas chegou a mobilizar cerca de 800 famílias que pediam a distribuição das terras improdutivas. Esse grupo é remanescente das Ligas Camponesas e ainda pede para ser incluído no programa. A retomada da luta pela reforma agrária na fazenda foi feita pelas 21 famílias que agora estão contempladas pela desapropriação. 

Alani Lima é presidenta do Memorial das Ligas Camponesas na Paraíba e afirma que essa celebração não encerra a luta pela reforma agrária na região, mas é simbólica por se tratar de um território de uma disputa que dura décadas e é marcada pela violência. Ela afirma que essa desapropriação é insuficiente para as demandas da luta, mas é simbólica comparado ao contexto da militância desde a década de 1950. 

“Estamos falando do berço da reforma agrária, que é a fazenda Antas. São camponeses que precisam da terra para sobreviver. Imagine outras áreas que não cumprem sua função produtiva ou que não cumpre sua função ambiental ou que não cumpre sua função social. Então, é uma forma de garantir para as pessoas que os camponeses, as famílias camponesas tenham esperança em ainda ter retomado o seu pedaço de terra, seu pedaço de chão” afirmou. 

Juliana Teixeira é neta de Elizabeth e participou da cerimônia de entrega das terras pelo ministério da Agricultura. Ela afirmou que Elizabeth é uma referência “fundamental” na luta pela terra e pela reforma agrária no Brasil. Ainda de acordo com Juliana, homenagear a sua avó neste momento é lembrar que a reforma agrária é “feita de chão e povo”, mas também “consciência e memória para não deixar a luta morrer”. 

Ministro Paulo Teixeira entrega para Dona Elizabeth Teixeira a portaria de criação do assentamento que leva seu nome | Crédito: Albino Oliveira, Ascom/MDA

“Ao manter viva a continuidade das Ligas Camponesas, após o assassinato de João Pedro Teixeira, ela transformou dor em coragem e a história de uma família em uma causa social. Mostrando que reforma agrária não é benefício, mas é justiça histórica e dignidade para quem trabalha na terra”, disse Juliana.

Com a desapropriação, a expectativa das famílias é começar a produzir alimentos e transformar o monocultivo da cana em produção da agricultura familiar camponesa. As famílias pedem a abertura de créditos pelo Ministério da Agricultura dentro do Plano Safra. 

“Não basta dar só a terra, tem que dar também crédito, tem que dar também condições de moradia, de sobrevivência, de produção. Então a perspectiva é ter produção, é alimentar a sociedade brasileira com a qualidade da reforma agrária e oriunda das ligas camponesas, do berço das ligas camponesas”, disse Alani Lima.

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, também participou do evento e lembrou das conquistas alcançadas pela reforma agrária ao longo da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De acordo com ele, a meta do governo é reforçar os assentamentos nos próximos meses.

“Vamos assentar cinco mil famílias nos estados do Maranhão, da Paraíba e Pernambuco e fazer uma grande área reformada com irrigação entre a Bahia e o Pernambuco, no perímetro irrigado do São Francisco”, afirmou.

Ligas Camponesas e o Memorial

Berço das Ligas Camponesas, Barra de Antas viveu intensos conflitos agrários entre as décadas de 1950 e 1960, liderados por figuras como João Pedro Teixeira e Elizabeth Teixeira. Em 1997, a ocupação da Fazenda Antas reavivou esse espírito de luta, dando origem ao processo de criação do assentamento Elizabeth Teixeira. Desde então, o território consolidou-se como espaço de memória e resistência, tornando-se referência na defesa da reforma agrária e dos direitos humanos no campo.

O Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, localizado em Sapé, na Zona da Mata paraibana, desenvolve ações que vão além da preservação documental. Oficinas, rodas de memória, visitas mediadas e coleta de depoimentos compõem um acervo vivo que conecta passado e presente, fortalecendo a identidade local e ampliando o alcance das lutas camponesas para novas gerações.

O memorial foi anunciado como um dos vencedores do 38º Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade 2025, promovido pelo Iphan. 

Editado por: Luís Indriunas

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