Do Fetichismo à Servidão Digital: A Ofensiva do Capital e a Necessidade de uma Política de Classe

Do Fetichismo à Servidão Digital: A Ofensiva do Capital e a Necessidade de uma Política de Classe

Por: Redação ·
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Por Cleusa Santos, militante da célula de Santos (SP) do PCB

Enquanto a classe trabalhadora sofre com apps, inflação e o circo político, a esquerda debate táticas. É hora de uma estratégia de poder.


Resumo: Este artigo analisa a nova morfologia da exploração capitalista no Brasil, onde a financeirização e a tecnologia convergem para aprofundar a precarização do trabalho e a captura da subjetividade. A servidão digital, o fascismo midiático-jurídico e o sequestro das universidades pelas Big Techs são faces de um mesmo projeto de dominação que busca um estado de exceção permanente favorável ao rentismo. Diante dessa ofensiva, o texto sustenta que a resposta está no fortalecimento urgente de uma política de classe orientada pela práxis insurgente – a união da consciência crítica com a ação organizada –, capaz de romper com o automatismo do mercado e construir um poder popular baseado na soberania, no tempo livre e na organização coletiva

1. Introdução: O Ataque é Real, a Resposta é Tática

Enquanto você lê este artigo, um entregador de app pedala contra o relógio de um algoritmo para ganhar menos de um salário mínimo. Este não é apenas um “cenário econômico”: é a materialização da desumanização do trabalho, a protoforma do ser social sendo capturada pela lógica mercantil. Trata-se de um projeto político que combina a precarização extrema com o espetáculo de distração para aplicar, sem resistência organizada, o programa do capital financeiro.

A PEC 38/2025 (o chamado “Teto Zero”), a privatização da Sabesp e o fatiamento de ativos estratégicos da Petrobras não são acidentes. São a mesma face da rendição da soberania nacional. Diante disso, parte da esquerda se perde na “pequena política”. Para enfrentar essa guerra de classes, é fundamental recuperar a categoria da totalidade social e construir uma estratégia que não apenas resista, mas que possua ambição de poder popular.

2. A Exploração Agora Tem App: A Servidão Digital e a Captura Cognitiva

O fetichismo marxiano, onde relações sociais aparecem como relações entre coisas, nunca foi tão literal (MARX, 2011). Como define Ricardo Antunes (2020), vivemos a era da “escravidão digital”, onde o algoritmo substitui o pôr teleológico humano por uma causalidade posta pela plataforma. O PL 12.344/2023 busca institucionalizar essa servidão, transformando o trabalhador em um “parceiro” sem direitos, governado por métricas opacas.

Os números da PNAD Contínua (janeiro de 2026) desnudam a gravidade do quadro:

· São mais de 1,7 milhão de trabalhadores plataformizados no país, muitos ocultos sob a máscara dos 15,5 milhões de MEIs, onde a suposta autonomia (ou “empreendedorismo”) encobre a superexploração.

· No setor de entregas, o trabalhador retém apenas cerca de 18% do valor da corrida, arcando com todos os riscos físicos e custos de manutenção. Não por acaso, motoristas e entregadores por aplicativo têm expandido e radicalizado suas pautas de reivindicação, denunciando essa lógica.

Essa exploração possui uma retaguarda sofisticada. Como demonstra a anatomia do mercado feita por José Kobori (2025), o rentismo opera uma engenharia de drenagem da riqueza social. O caso Americanas/Lemann 3G, com seu rombo de R$ 43 bilhões, revela que o lucro do capital financeiro é extraído diretamente da fraude institucionalizada e da precarização do trabalho, operando acima de uma lei que se aplica apenas aos de baixo.

Mas a ofensiva do capital não se restringe à esfera econômica; mira, sobretudo, a mente. As pesquisas de Aragon e Antenor (2026) denunciam que a captura das universidades públicas pelas Big Techs não é um fenômeno difuso, mas uma estratégia de subsunção cognitiva. O Google busca tornar-se a “infraestrutura do pensamento” do Estado. Ao mediar a educação e a pesquisa, essas corporações operam o que Jiang Xueqin (2026) identifica como a produção de sujeitos funcionais, esvaziando a capacidade de pensamento crítico (a consciência para-si) para garantir que a ciência pública se torne infraestrutura privada de poder.

3. O Master e o Sequestro da Democracia: A Engrenagem Política da Pilhagem

Essa engrenagem de rapina encontra seu correlato político direto no avanço de grupos como o Master, que operam o sequestro da esfera pública. Através de denúncias forjadas e ameaças sistemáticas ao STF, esses setores buscam fragilizar a legalidade burguesa sempre que esta impõe limites, ainda que mínimos, à sanha do capital.

Não se trata de liberdade de expressão, mas de uma ofensiva coordenada para garantir que o país permaneça em um estado de exceção permanente, favorável à pilhagem financeira. É o fascismo digital utilizando a tecnologia não apenas para explorar, mas para corroer a democracia por dentro, assegurando que o poder judicial e midiático atua como braços da dominação de classe.

4. O Imperialismo em Crise: Da Violência Interna ao Espasmo Externo

A ofensiva reacionária é global e possui uma expressão doméstica violenta nos próprios Estados Unidos. O assassinato de George Floyd e a política migratória brutal de Donald Trump — com o fortalecimento do ICE e uma retórica abertamente fascista — expuseram o racismo institucional e a violência estrutural no coração do império. Esses episódios não são desconexos; mostram como a criminalização de imigrantes e a desumanização de minorias criam o terreno para a barbárie. A comoção gerada por Floyd, ampliada por movimentos como o Black Lives Matter, serviu de catalisador para mobilizações mais amplas, que conectaram a luta antirracista à defesa dos imigrantes e dos trabalhadores precarizados, fortalecendo redes de solidariedade contra a política de exclusão.

Essa escalada repressiva interna foi justificada e amplificada por uma retórica beligerante voltada para o exterior. As ameaças do governo Trump a países como Irã, Panamá e Cuba, vocalizadas por figuras como o senador Marco Rubio, inseriram-se em uma lógica de intimidação que resgata os ecos da Guerra Fria. Ao criminalizar governos soberanos como “inimigos” e defender bloqueios e intervenções, essa narrativa fabricou uma “ameaça externa utilizada para legitimar, no plano interno, políticas ainda mais repressivas. Tal postura, no entanto, provocou uma reação contrária, fazendo com que amplos setores da sociedade civil conectassem a luta antirracista doméstica com a denúncia do caráter imperialista da política externa norte-americana.

Contida em casa por essa resistência, a crise do projeto imperial extravasou em um ato de força bruta no quintal latino-americano. O sequestro de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, capturado em uma operação ilegal das forças estadunidenses, representa o que José Luís Fiori (2026) descreve como um “espasmo do declínio imperial”. Quando a hegemonia econômica e moral se esvai, resta a violência — já testada internamente e justificada pela retórica beligerante — como recurso desesperado. A invasão da soberania venezuelana expõe essa lógica última de um império que vem perdendo o controle.

As sanções criminosas já causaram prejuízos de US$ 232 bilhões ao povo venezuelano, gerando sofrimento humano e asfixia econômica. O alinhamento brasileiro a essa agenda, validado pelo silêncio ou pela submissão em fóruns internacionais, é a prova cabal da nossa perda de autonomia. Defender a autodeterminação dos povos e a integração latino-americana soberana não é apenas diplomacia; é uma exigência ontológica de sobrevivência para a classe trabalhadora do continente.

5. Para Além da Pequena Política: A Grande Ambição da Classe

Este quadro de ofensiva global não é um cenário distante. Ele encontra sua expressão concreta e aguda no Brasil. A crise do Banco Master escancara o poder destrutivo do rentismo e a fragilidade de um sistema financeiro que opera acima da lei. Os números revelam a dimensão do saque: em 2024, o Brasil gastou R$ 729 bilhões apenas com juros da dívida pública (BRASIL, 2025) — valor que superou, sozinho, todos os investimentos federais em saúde, educação e infraestrutura somados. Enquanto a educação recebeu cerca de R$ 130 bilhões e a saúde R$ 160 bilhões (BRASIL, 2025), o capital financeiro sugou o equivalente a quase seis vezes o orçamento educacional. Esta é a materialidade da financeirização: um país que, apesar de safras recordes (IBGE, 2025), mantém 125 milhões de pessoas em insegurança alimentar (FAO, 2025). A contradição não poderia ser mais gritante: o sistema público é vilipendiado para alimentar o rentismo, enquanto a maioria da população sofre as consequências da precarização.

Como alerta Marilena Chauí (2014), a “ideologia da competência faz com que a própria esquerda acredite que basta gerir com eficiência o Estado burguês. Mas o neoliberalismo é totalitário e exige a conversão permanente de direitos em mercadorias. Ladislau Dowbor (2023) reforça que o rentismo asfixia o investimento produtivo, resultando justamente nesse cenário de fome em meio à abundância. Nesta encruzilhada histórica, a pergunta sobre a “grande política” torna-se inadiável.

Diante deste quadro, o PCB aponta caminhos para uma grande política da classe trabalhadora:

1. Unificar pelas necessidades concretas: A luta contra a inflação de alimentos e a campanha nacional pela redução da jornada para 40 horas sem redução salarial. A luta pelo tempo é o fundamento material da liberdade humana e um eixo que unifica o precarizado, o formal e o desempregado.

2. Construir poder popular desde já: Fortalecer a insubmissão presente em movimentos como o “Breque dos Apps” e nas redes de solidariedade de classe que enfrentam a fome nos territórios. São embriões de um contrapoder que disputa a hegemonia no cotidiano e resgata a capacidade de pensar e agir coletivamente.

3. Disputar a soberania e o projeto de país: Defender a reestatização imediata de empresas estratégicas e o controle público do sistema financeiro para arrancar o país das garras dos especuladores. Este é o programa mínimo para enfrentar o capital rentista e imperialista e recuperar a soberania sobre nosso pensamento e nossa riqueza.

Conclusão: A Hora da Estratégia e da Práxis Insurgente

O capital não tem dúvidas sobre o seu projeto de morte, materializado na servidão digital, na captura cognitiva e no estado de exceção permanente. Nossa resposta, portanto, não pode se limitar à tática ou à gestão da crise. Como demonstrou a análise, a ofensiva é total: do algoritmo que fragmenta o trabalho às plataformas que sequestram a democracia e a universidade que formata o pensamento.

Superar esse estágio exige, como nos ensina a ontologia marxiana (LUKÁCS, 2012/2013), a práxis insurgente – a unidade indissolúvel entre a consciência crítica que desvela os fetichismos (da mercadoria, do algoritmo, da competência) e a ação organizada que projeta teleologicamente uma nova sociabilidade. Ela se manifesta onde a classe resiste e propõe: no “Breque dos Apps” que nega a servidão digital, nas redes de solidariedade que enfrentam a fome e na luta pelo tempo livre que questiona a própria raiz da exploração.

A história não é um destino traçado; ela permanece aberta às escolhas humanas conscientes. O desafio teórico e político que se coloca hoje, portanto, não é apenas resistir à gestão da barbárie, mas recuperar a capacidade de decidirmos, coletivamente, sobre o nosso futuro, rompendo com a lógica fetichizada e automatizada imposta pelo mercado. Como ecoam ainda as aulas de José Paulo Netto, nessa perspectiva, a liberdade deixa de ser uma abstração para tornar-se real exatamente à medida que se torna uma conquista de todos. Esse é o sentido profundo da construção de um poder popular: transformar a crítica e a indignação em força material organizada. Só assim o “mundo dos homens” deixará de ser o reino da mercadoria para tornar-se, finalmente, o espaço da liberdade concretamente vivida.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2020.

ARAGON, R.; ANTENOR, E. Quando o Google captura a universidade pública. Outras Palavras, São Paulo, jan. 2026. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/quando-o-google-captura-universidade-publica/. Acesso em: 27 jan. 2026.

BOSCHETTI, Ivanete. Seguridade Social e Trabalho: crises e contrarreformas. São Paulo: Cortez, 2025.

BRASIL. Ministério da Educação. Orçamento da Educação – 2024. Brasília: MEC, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mec. Acesso em: 29 jan. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Execução Orçamentária do SUS – 2024. Brasília: MS, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 29 jan. 2026.

BRASIL. Tesouro Nacional. Relatório Anual da Dívida Pública Federal – 2024. Brasília: Ministério da Fazenda, 2025. Disponível em: https://www.tesourotransparente.gov.br/. Acesso em: 29 jan. 2026.

CHAUÍ, Marilena. A ideologia da competência. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

DOWBOR, Ladislau. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Panorama da Segurança Alimentar no Brasil – 2025. Roma: FAO, 2025. Disponível em: https://www.fao.org.

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