Gabriel Marques, militante do PCB e da Unidade Classista
Muitas crianças sonham em conviver com um animal de estimação e inseri-lo em sua família. Muitos desses animais se tornam melhores amigos e são lembrados em fotos, vídeos, postagens, histórias e memórias de diversas famílias.
Muitas pessoas também se dedicam ao acolhimento e ao cuidado de animais com fome, debilidade, em diversas situações de vulnerabilidade, mantendo abrigos ou lares temporários, fornecendo carinho e dignidade para estes seres. Outras tantas pessoas são solidárias, ajudando tais iniciativas e contribuindo com rações, remédios, roupinhas, cobertores ou mesmo doações financeiras.
Tem sido bem comum a entrega de vídeos, principalmente de gatos e cachorros, nas redes sociais. Dia desses apareceu um vídeo de uma festa, com direito a bolo, petiscos e parabéns para uma gatinha que perambulava por um box de crossfit. Certamente muitos(as) de nós nos divertimos e nos emocionamos com tantos outros vídeos fofos protagonizados por animais, com sua docilidade, sua fidelidade e suas peripécias.
Com tantas bonitas e emocionantes histórias, queremos acreditar que a maioria da população está e estará ao lado do carinho e do amor. É até possível aceitar e respeitar quem não queira desenvolver proximidade ou até possua algum tipo de medo ou trauma – e vida que segue.
Nos últimos dias, temos acompanhado, com tremenda indignação, a absurda e triste notícia de ações com requintes de crueldade ocorridas no dia 4 de janeiro, culminando com a eutanásia de Orelha, um idoso cão comunitário cuidado e querido por moradores e frequentadores da Praia Brava, em Florianópolis, há cerca de dez anos. As investigações também apontam para uma tentativa de afogamento de Caramelho, que conseguiu escapar.
Quatro adolescentes estão identificados como suspeitos da autoria de tal violência. Em virtude de não terem os 18 anos completos, o caso está regido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), trazendo fortes e tensos posicionamentos, em virtude dos suspeitos pertencerem a famílias ricas da região. Inclusive, três adultos foram indiciados por conta de coação, sob acusação de utilização de violência ou grave ameaça para favorecer interesses dos suspeitos.
Felizmente, muitas pessoas estão sensibilizadas com o ocorrido e têm se mobilizado ao longo das últimas três semanas, a fim de não deixar essa história morrer, clamando por Justiça por Orelha. É preciso cobrarmos o curso das investigações, tomando os devidos cuidados para não expor imagens antes das conclusões, assim como não flertar com o discurso reacionário, que pode se aproveitar do cenário para atacar o ECA. Querer Justiça por Orelha passa pela responsabilização dos envolvidos, não por linchamentos virtual ou físico. É importante demais a busca de possíveis causas deste episódio de zoosadismo, – prazer em ver ou praticar crueldade contra animais – cujas influências podem ter iniciado em comunidades virtuais e radicais de ódio. A exposição a conteúdos nocivos em redes sociais e em jogos, coordenadas por adultos criminosos, dessensibilizando a violência, pode desencadear episódios de zoosadismo, abuso sexual, estupros virtuais ou suicídios.
Sigamos na cobrança e no acompanhamento das notícias e das investigações e construamos mais exemplos envolvendo animais comunitários, prática muito significativa de responsabilidade coletiva com um animal em situação de rua, ponto importante para os ideais comunistas. E que as práticas cruéis e assassinas realizadas pelos adolescentes sejam devidamente combatidas, responsabilizando os autores adolescentes e adultos que possam estar envolvidos ou tenham se omitido.
Foi interrompida a possibilidade de Orelha vivenciar momentos de alegria e prazer ao ser cuidado e ao devolver com amor, rabo abanando, latidos e lambidas tantas pessoas que iam ao seu encontro. Que ele descanse em paz, que haja justiça e que continuemos nossa trajetória diária visando à construção de uma sociedade sem a propagação e a materialização do ódio e da violência.
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