Movimento dos Trabalhadores Sem Terra organiza luta por moradia no Bairro do Belém

Movimento dos Trabalhadores Sem Terra organiza luta por moradia no Bairro do Belém

Por: O Poder Popular ·

Por Jornal O Futuro de São Paulo

Mutirantes se organizam na Ocupação Maria Carolina de Jesus no Belém, para dar início as obras de construção de moradias populares para 227 famílias.

Reunidos em uma cobertura em formato de parabolóide hiperbólico que atrai olhares de todos; ao som dos agudos choques dos trilhos do Metrô Belém que se localiza atrás da Ocupação Maria Carolina De Jesus: vozes de lideranças e mutirantes, querendo ser ouvidas, mas também ouvirem os próximos passos necessários para a construção de suas moradias, se esforçam na Assembléia Popular, para superar aquele barulho da modernidade que há tempos sufoca suas vozes.

Desde 1990 o Movimento Sem Terra Leste 1, lutou contra a burocracia institucional imposta pela Prefeitura de São Paulo, principalmente no mandato de Maluf (1993), onde os mutirões foram interrompidos. Recentemente entre 2013 e 2014 houve negociações com o prefeito da época Fernando Haddad (PT), e finalmente no ano de 2016 ocorreu uma autorização da COHAB (Companhia Metropolitana de Habitação), para que o Movimento Sem Terra Leste 1 pudesse oficialmente realizar a construção de habitações de interesse social (HIS), para a população baixa renda.

O complexo habitacional compreenderá apartamentos entre 44 m² e 50 m² que terão 2 quartos em sua maioria, enquanto alguns localizados entre as extremidades da edificação serão de 60 m² disponibilizando área para 3 quartos; garantindo uma maior comodidade para as famílias maiores. Em todos os apartamentos são inclusas varandas e lavanderias.

As áreas sociais, tem o projeto de inclusão de uma área comercial no térreo para a autogestão ser realizada entre os próprios moradores que buscam ter um empreendimento próprio, fortalecendo assim a economia local.

Desta maneira existe a possibilidade da construção de uma Escola Pública próxima ao local, mas também através dessas vivências a constituição de sujeitos políticos engajados em compreender a realidade social e política de seu país. De acordo com Paulo Freire, a importância da “compreensão do mundo”, precede a compreensão da palavra.

E é nesse sentido, que o Movimento Sem Terra Leste 1, ensina e aprende, que a luta pelo direito mais básicos como Moradia, atravessa a construção de sujeitos políticos que se constroem na medida que constroem suas casas, a cada enxadada, cada fiação feita; o trabalho, que fora dali é apropriado por e para enriquecer outrem na tentativa de pagar sua sobrevivência, ali, transforma-se em um reconhecimento de que o produto de seu trabalho, sua casa, é fruto da solidariedade, é fruto do trabalho coletivo de famílias ao mesmo tempo que é fruto de seu próprio trabalho.

Origens e conquistas dos mutirões

Surgido em 1987, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1, ganha proporções quando no Jardim São Francisco, Zona Sul da Cidade de São Paulo, onde 82 famílias mutirantes que ocupavam um terreno da Eletropaulo, construíram com sucesso suas moradias. Período em que a gestão da prefeitura, sob Luíza Erundina (PT), vicejou um dos momentos mais progressistas da cidade.

Foram movimentos tão fortes, em que a população se organizou tão bem e de forma tão aguerrida, que foram capazes de atravessar governos dos mais assombrosos e burgueses como a gestão Paulo Maluf e Geraldo Alckmin e, ainda assim, apesar do embate, do confronto e da luta do poder público, da especulação imobiliária, do preconceito e do racismo, resistiram e enfrentaram, seguindo na construção de suas moradias.

Os mutirões, são fenômenos sociais, nascidos do seio da população como uma resposta ao capitalismo, que absorve todo o trabalho do trabalhador que tudo constrói, mas ele próprio não tem onde morar.

Hoje já são mais de 2315 famílias sob tetos construídos numa luta coletiva e solidária, 16 plantas entregues pelos próprios moradores e moradoras, com 5 ainda em construção coletiva. Pela história, comprovou-se a eficiência dos mutirões frente ao Poder Público burguês que, além de muitas vezes se evadir em cumprir a Constituição de 1988 onde o a moradia é um direito, demonstra que o papel do Estado Capitalista não é satisfazer as necessidades mais básicas da classe trabalhadora, mas impedi-la de avançar na luta pelos seus direitos e de sua humanização, já que a especulação imobiliária, é uma ferramenta da classe burguesa para expulsar indiretamente a população trabalhadora, pobre e negra brasileira, elevando brutalmente os preços dos terrenos, aluguéis e moradias na capital paulista quanto mais próximo do centro e de bairros elitizados.

Inclusão do excluído

No entanto, a Ocupação Maria Carolina De Jesus, representa um grande avanço na projeção real de elaboração de moradias populares.

Geralmente, programas de habitação e/ou mutirões conseguem ser construídos — ainda sim com muita luta — em regiões afastadas do centro da cidade; fazendo com que seus moradores tenham um deslocamento muito grande para ter acesso à: empregos, educação, lazer, cultura e oportunidades. Esta ocupação, localizada ao lado do Metrô Belém, próximo de bairros como o Brás, Sé, são conquistas arrancadas do seio do capital contra o capitalismo: a especulação imobiliária e a exclusão social.

Os “mutirantes” devem estar por toda a Cidade, não somente construindo os movimentos de moradia. Esta ocupação, é símbolo concreto, do avanço na luta tanto pelo direito à moradia de qualquer indivíduo, como contra o poder capitalista e suas manifestações sociais como: o racismo, o machismo, a misoginia, LGBTfobia, e a aporofobia. É preciso que o acesso a cidade seja democratizada, golpeando a gentrificação (processo de transformação das áreas urbanas que elevam o custo de vida e aprofunda a segregação socioespacial nas cidades; modificando a paisagem urbana, promovendo a expulsão de antigos moradores e mudando o perfil social dos bairros), marginalização, racialização e periferização das cidades.

De objeto à sujeito: a construção do sujeito político nos mutirões

As famílias que chegam, se cadastram e participam de uma grande assembléia em que são iniciadas num modelo organizativo que se propõe horizontal, não havendo hierarquia no poder, mas decisão conjunta de todos que estão presentes. A assembléia começa com uma “mística”, onde são recitados poemas e poesias, e outras sensíveis e cheias de bonitezas, expressões culturais brasileiríssimas, extremamente politizadas, que falam e cantam sobre a questão de gênero, LGBT, raça, classe, literatura, etc.

Dentro da Assembléia são discutidas questões essenciais a respeito da organização, horários, delegações de tarefas, segurança pessoal e coletiva, EPIs, satisfação de dúvidas e fornecimento de informações.

Há também apresentações de propostas em que os mutirantes debatem e discutem acaloradamente, característica de qualquer organização ou grupo que presa à diversidade e pluralidade, podendo haver divergências sobre um mesmo ponto, mas também podendo-se chegar em um consenso.

Posteriormente, em Comissões e Grupos de Trabalho, os mutirantes se organizam, de maneira mais detalhada sobre as respectivas atividades e responsabilidades de cada um. As crianças e idosos não são deixados de lado, participam também, na medida em que podem e desejem, sempre com segurança.

O perfil sociodemográfico é majoritariamente negro, feminino e pobre. São elas que lideram o movimento. Elas que literalmente põem a mão na massa. Por isso, o espaço e delegação de tarefas de cuidado é pensado também para que as mães possam trabalhar com segurança e despreocupadas. Existem diversas comissões, uma delas é chamada de “Ciranda” e são responsáveis pelos cuidados destinados as crianças, promovendo atividades para distração e aprendizagem.

Também há uma comissão que fica responsável pela alimentação dos mutirantes, preparando café da manhã, almoço e café da tarde. Desta maneira, fica patente que, o princípio de auto-organização é de suma importância para os mutirantes, que contribuem com valores ínfimos para a aquisição de Seguros de Vida, EPIs e compra de alimentos.

Quando não estão construindo moradias, constroem-se enquanto sujeitos: projetos sociais como cursos, eventos, aulas, onde ninguém ensina, mas todos aprendem. Segundo uma das mutirantes que aparecem no documentário referenciado a baixo, Dona Cleuza, “dentro do mutirão teve a educação, a cultura, o lazer para a criançada, os filhos dos Mutirante. Foi montada cooperativa, onde as mulher teve curso de pedreiro, elétrica, hidráulica”.

Em suma, a cada pedra posta, a cada cimento derramado, a cada piso firmado, são construídos sujeitos antes objetificados, vistos como “massas”, “povão”, ou seja, sempre homogêneo, sem qualquer distinção, que só existem para trabalhar; mas, no Movimento adquirem de suas próprias mãos a possibilidade de comandarem seu próprio futuro, ampliarem seus horizontes, de participarem politicamente das decisões que afetam suas vidas e a de seus filhos, de proporem, de aprenderem, em solidariedade e coletivamente, tornando-se nítido que o processo de construção da vida social é feito por todos, juntos.

Publicado originalmente em: https://www.ofuturodesp.com.br/movimento-dos-trabalhadores-sem-terra-organiza-luta-por-moradia-no-bairro-do-belem/

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