O ódio como bandeira é uma armadilha

O ódio como bandeira é uma armadilha

Por: Redação ·

João Paulo Chaib – PCB Ipatinga.

Camaradas, há pouco tempo tenho visto um crescente discurso entre diversos youtubers a respeito do denominado “ódio de classe” já instalado ou a ser desenvolvido pela classe proletária e usado em favor do movimento revolucionário. Isso tem entrado inclusive no discurso de militantes do nosso partido. Ora, essa questão é uma questão de fundo muito importante para que fique alheia ao debate interno pois remete às estratégias de formação, narrativa e comunicação do próprio partido. Dessa forma, uso desse espaço para desenvolver uma reflexão ao redor desse ponto e, talvez, promover um debate, imaginando que não é um ponto consensual.

Não pretendo entrar no mérito se tal autoridade (entre nós comunistas) fez alusão de tal tática em um contexto específico de sua história. Ou fazer um balanço, avaliar se ela de fato foi implementada de maneira positiva ou se as conquistas foram apesar dela. Antes disso, penso, é preciso refletir sobre o seguinte: oque se entende por “ódio” e se faz sentido político e pedagógico fomentá-lo, mesmo ele sendo “de classe”.

Longe de um debate moral, antes de tudo devemos refletir sobre o que é um sentimento. Entender a existência de um “sentimento puro” chamado “ódio” que podemos “direcionar” como uma “energia” sem entendê-lo materialmente, não seria um idealismo? Como comunistas que somos, sabemos que um dado sentimento como um pensamento abstrato por si só não existe. Um sentimento é síntese das relações do mundo concreto, é um gatilho de sensações sobre as quais podemos racionalizar ou não, nos levando à ação ou inação. Além do mais, se estas sensações já foram vivenciadas, elas nos remetem à situações análogas de maneira consciente ou não. Bem materialista essa definição, não? Para mim, Vigotski acertou em cheio.

Por isso mesmo, alguns sentimentos vem como reflexos (tal como piscar), mas reflexos também podem ser educados por estímulos externos. A “raiva” seria o caso do primeiro o “ódio” o segundo. Uma pessoa pode ficar com raiva quando uma pedra cai em seu pé, mas seria estranho ficar com ódio da pedra. O ódio é sentimento educado por uma dada configuração social. Ao mesmo tempo, vale lembrar que historicamente os usurpadores é que primeiro cultivam o ódio aos usurpados, estes por sua vez só querem defender e lutar por aquilo que lhes é essencial para viver bem. Então ódio não é apenas raiva, mas a raiva educada e justificada por ela mesma – irracional no sentindo de não se racionalizar a origem material e histórica –para agir violentamente com objetivo de cercear a autonomia do grupo ou pessoa que é foco desse ódio. Nenhum opressor dirá “te odeio porque quero justificar meu poder”, mas “te odeio porque me despertas a contrariedade”. Preconceito e ódio andam juntos. Assim, a origem material e histórica do sentimento “ódio” vem primeiramente da conquista e defesa da propriedade privada, apesar de não se prender a ela (como várias das práticas que a propriedade privada trouxe com ela, tal como a corrupção e o preconceito).

Se assim foi, então, pergunto, não seria contraprodutivo para um movimento comunista usá-lo de maneira pragmática em vez de explicitar os vínculos desse sentimento (suas causas e consequências)historicamente à luta de classes? Desvelá-lo como um componente pedagógico fruto da própria propriedade privada? Ao falar “fomentar o ódio ao nosso favor”, não seria algo como dizer “fomentar uma instituição da propriedade privada ao nosso favor”? A questão, repito, não é moral, mas a raiz pedagógica e a estrutura psicológica que se propõe usar ao querer “usar o ódio”. Vou tentar aprofundar.

Não nego que na França (e muitos outros lugares) muitos pegaram em armas por ódio à aristocracia, a única ação possível. Essa não é a questão. O ódio à classe dominante surge como fruto pedagógico da prática da própria classe dominante, e não dos dominados. Não está em debate a inevitabilidade do sentimento de ódio que a opressão traz. É apenas uma das irônicas contradições que a propriedade privada traz consigo. A questão é o que fazer com essa contradição? Na revolução francesa era a burguesia que liderava, não importava para ela a motivação das demais classes. E para nós? Como forma e fundo não estão separados, a questão passa por saber se usar do sentimento de ódio por uma organização revolucionária é uma estratégia política e pedagógica para criar a revolução proletária, ou devemos nos organizar para além do ódio de classe e formar a consciência de classe, sem etapismos.

E não acho que “ódio de classe” e “consciência de classe” possam ser usados como sinônimos. Se o objetivo é usar palavra da “ódio” mas com sentido diferente (embora, não me pareceu o caso), deve-se mudar o termo para evitar a confusão nas nossas fileiras. Existe uma polissemia para a palavra “ódio”, mas, em boa parte que percebi, era uma faceta da sua origem. Como destacado, “ódio” foi definido como um sentimento que apesar de exercitado não é racionalizado. “Consciência” é a antítese do ódio. Preconceito e ódio, esses, sim andam juntos e é muito fácil ver exemplos históricos disso. Por ser irracional a ação “impelida” por esse sentimento é mais fácil de atingir do que a ação pela consciência da causa dele. A burguesia, hoje mais que antes com certeza, tem mais instrumentos para direcionar uma ação irracional. Daí, não é atoa que o fascismo se serve dele tão bem. O que é o ódio “ao estado”? O ódio “aos bancos” se não um direcionamento do ódio à burguesia usada em favor dela? Aliás, por isso a anti-ciência também é tão difundida pelo fascismo: a autoridade deve vir antes do argumento.

Entender a questão prática pedagógica e seus desdobramentos é fundamental. Se dizemos que existe um ódio legítimo e um ódio ilegítimo, sem discutir a origem e consequência material do sentimento “ódio” aí sim estamos caindo em um debate moral pois, pedagogicamente, é uma questão de simplesmente escolhera autoridade mais conveniente para justificar a ação provocada por esse sentimento. Assim, explicar “porque devemos odiar fulano ou burguesia” é dizer em primeira instância “seu sentimento de ódio deve ser direcionado para cá” antes de dizer “seu ódio tem uma raiz material e esses são os motivos: aja consciente”. Embora essa última hipótese possa ser a intenção do interlocutor, não é isso que se constrói pedagogicamente. Caso contrário, historicamente, as pessoas estariam muito mais interessadas em entender a origem das fórmulas do que decorá-las: o ódio é uma fórmula fácil a ser aplicada, “não lembro do argumento, mas eu vi, tenho certeza, que fulano explicou a legitimidade de meu ódio”.

E se antes de Vigotski não se tinha esse esclarecimento, hoje não temos mais desculpa. O que estamos nos estimulando, organicamente falando, ao estimular o ódio? Ou seja, pergunto se dadas as relações psíquico, neurais e pedagógicas que constroem o sentimento de ódio, há como existir “ódio consciente”? Não consigo ver exemplo histórico disso. Consciência e ódio partem de bases concretas diferentes. O ódio à burguesia tem origem na prática da própria burguesia, não dos comunistas. Nossa prática consiste em explicar o motivo dele existir e transformá-lo em consciência, e assim extinguir o ódio (sentimento irracional que persiste) e transformar em sentimento revolucionário, uma raiva racional no momento que convier. Claro, não somos máquinas. Mas sim está colocada a questão de se educar para ser guiado pelo sentimento (e ser objeto) ou para guiar o sentimento (e ser sujeito). Ao não se questionara matriz que cria esse sentimento, ignora-se as consequências psicológicas/fisiológicas(individuais)e pedagógicas/de práticas (enquanto classe) que o simples fato de mantê-lo (direcionado a quem for) traz. Pelo contrário, sempre me lembro que o motivo que defendo a revolução é para promover a felicidade, pois o capitalismo já nos impele por demais a reproduzir sua práxis autodestrutiva. Deve-se ser comunista para sair depressão, não para entrar nela. Pois o entendimento leva à libertação “é a maneira mais econômica de ser feliz”. Pelo contrário, com consciência científica de entender com quem antagonizar, não é mais ódio, pois se tornou indignação com razão de ser; raiva com paciência histórico-revolucionária; ação dura, mas sem perder a ternura jamais.

Assim, a meu ver, “usar o ódio” de maneira revolucionária seria desconstruí-lo. E assim desenvolver a compreensão do motivo material de sua origem, ilustrado acima, para a construção da consciência de classe. Daí fica muito mais difícil haver uma reversão. Arrisco dizer que um grande camarada –exemplo de centralismo democrático– diria que não é o ódio que move uma pessoa quando se “sabe que dois mais dois são quatro”, mas a consciência revolucionária do que tem que ser feito e o motivo disso. 1Se o ódio está ou não presente – somos frutos da história – não é ele que deve nos mover enquanto movimento comunista organizado. E usar ele como bandeira ou elemento pedagógico base é uma armadilha.

1Em tempo, penso que existe uma falácia quando individualizam a posição de Prestes na questão do queremismo e esquecem que ele estava se centralizando pela análise feita pelo partido comunista e a 3a internacional, do qual ele fazia parte. Se as análises estavam corretas ou não isso não vem ao debate ao tratar dessa ação específica. O que não se pode é dizer que fulano ou sicrano “não é tão grande quando Prestes” ao seguir o PCB quando o que Prestes fez foi justamente se centralizar pela decisão de seu partido. Agir comunista, essa foi a grandeza dele.

1 Em tempo, penso que existe uma falácia quando individualizam a posição de Prestes na questão do queremismo e esquecem que ele estava se centralizando pela análise feita pelo partido comunista e a 3a internacional, do qual ele fazia parte. Se as análises estavam corretas ou não isso não vem ao debate ao tratar dessa ação específica. O que não se pode é dizer que fulano ou sicrano “não é tão grande quando Prestes” ao seguir o PCB quando o que Prestes fez foi justamente se centralizar pela decisão de seu partido. Agir comunista, essa foi a grandeza dele.

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