Por Pedro Veberling - Graduando em Ciências Econômicas pela UFVJM, pesquisador e militante da UJC BRASIL - https://ujc.org.br/
Publicado originalmente na revista Aurora Operária, de Ipatinga (MG).
Se o conhecimento é a principal ferramenta para a transformação da sociedade, até quando vamos aceitar que o futuro da juventude trabalhadora seja apenas uma fonte de lucro para os monopólios da educação?
O cenário brasileiro escancara a conversão acelerada do direito ao ensino numa máquina de acumulação de riquezas. A universidade, antes pensada como território de produção científica e emancipação social, está agora sequestrada pelos grandes oligopólios do setor privado. Sob as regras do capitalismo dependente, o saber vira mercadoria e o estudante da classe trabalhadora, ao ingressar numa faculdade particular, acaba reduzido à figura de um cliente aprisionado por dívidas. Durante anos, a classe dominante vendeu a ilusão de que a expansão do acesso pelas vias privadas iria democratizar o país. No entanto, projetos de conciliação de classes e políticas de financiamento serviram na verdade para transferir bilhões dos cofres públicos diretamente para fundos de investimento. Essa manobra permitiu que corporações gigantes submetessem a sala de aula à lógica financeira e transformassem diplomas em dividendos.
Para garantir margens de lucro cada vez maiores, os donos dessas instituições privadas precarizam o trabalho docente, esvaziam o tripé universitário e entregam uma formação completamente rebaixada. A empresa travestida de universidade não tem o menor interesse em criar pensadores críticos. O seu único objetivo é fabricar mão de obra barata e flexível para alimentar a máquina de exploração. Além do retorno imediato garantido pelo pagamento das mensalidades, os donos do poder precisam dominar as mentes. O espaço acadêmico passa a atuar como um sofisticado aparelho ideológico desenhado para ensinar a submissão e naturalizar a barbárie cotidiana. Procuram arrancar do jovem qualquer capacidade de imaginar uma alternativa sistêmica, impondo currículos vazios baseados na falácia da meritocracia. O intuito é culpar o próprio indivíduo pelas falhas de uma estrutura que já nasceu apodrecida.
Contra esse projeto de dominação, os estudantes não podem aceitar pautas defensivas ou ilusões reformistas. É urgente forjar uma mobilização coletiva genuinamente revolucionária para exigir que o Estado cumpra o seu verdadeiro papel. O governo tem a responsabilidade histórica de acabar com a política sistemática de injeção de dinheiro no setor educacional privado. Rejeitamos integralmente a lógica que condiciona o direito ao estudo ao poder de compra de cada cidadão. O acesso ao saber é inegociável e jamais um serviço ditado pelas regras do mercado, cabendo ao poder público o seu financiamento estrutural. Essa não é uma batalha isolada, mas sim uma urgência de toda a sociedade. A defesa de um modelo público, gratuito e radicalmente estatal deve unir quem hoje sofre com o endividamento nas faculdades particulares, quem ocupa as vagas das federais e a totalidade da classe trabalhadora. A nossa tarefa exige aniquilar a separação entre o pensamento e a ação. Transformar a teoria numa arma e a vivência acadêmica num instrumento direto de embate social significa organizar a contestação radical nos exatos locais onde tentam reproduzir a ideologia dominante. Longe de aceitar o papel de consumidor passivo, o estudante tem de ser a faísca capaz de incendiar as contradições desse sistema.
Leituras sobre o tema:
• FERNANDES, Florestan. A universidade brasileira: reforma ou revolução? São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1975. Disponível em: marxists.org/portugues/fernandes/index.htm
• MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. Disponível em: marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/index.htm
• NEVES, Lúcia Maria Wanderley (Org.). A nova pedagogia da hegemonia: estratégias do capital para educar o consenso. São Paulo: Editora Xamã, 2005.
Fonte: Universidades privadas têm a maior evasão da história: 3,42 milhões de alunos abandonaram os cursos em 2021 - Agenda do Poder
- Editoriais
- O Jornal