Fatima Guerreiro – Historiadora e Advogada
Assisti no dia 27/06/2026 a live do Jornalista Leandro Fortes em que foram convidados duas pessoas que assumiram pertencer ao grupamento “Unidade Marxista”, mais conhecida como UMA, intitulada “Critica marxista ao transativismo nacional”, link (446) Critica marxista ao transativismo nacional - YouTube, ainda disponível na rede mundial de computadores.
Os dois convidados assumiram pertencer a UMA e não são especialistas no tema LGBTQIAPN+. Salutar esclarecer que na Plataforma Lattes consta o currículo dos dois, onde pode ser comprovado que estão mais envolvidos com Ciência da Computação, apesar da palestrante Marina ter formação em Ciências Sociais, não se vislumbra qualquer dado quanta uma possível expertise no tema LGBTQIAPN+, ou seja, não constam estudos/ pesquisas ou qualquer artigo sobre o tema, sequer outras palestras.
Nos comentários que constam no YouTube no link da live, há elogios, mas algumas pessoas pertencem a UMA, como fica notório no desenrolar da live quando o Anfitrião faz as leituras do chat, para comprovar, basta assistir a live e os palestrantes, inclusive, agradecem e afirmam que são colegas da UMA. Todavia, tem comentários em sentido oposto, inclusive, quanto ao
desconhecimento do tema por parte dos palestrantes.
Na realidade, o Jornalista Leandro Fortes pretendia criticar a postura da Deputada Federal Erika Hilton quanto ao seu pronunciamento de que o seu partido (PSOL) deveria definir maior verba eleitoral para sua campanha. O PSOL não trouxe a discussão a público e sequer sexualizou a discussão, nem poderia fazê-lo, pois trata-se de posição política entre correntes, ingenuidade dizer que é uma posição personalíssima da Deputada e é provável que foi discutido internamente na sua corrente, tendência política.
O que mais causa espanto nos comentários são os adjetivos elogiosos para o Anfitrião quanto a sua coragem de discutir o tema.
Essa questão é realmente preocupante, pois o Jornalista Leandro Forte tampouco é um especialista em temas LGBTQIAPN+, uma vez que desvirtuou a questão pautada pela Deputada Erika Hilton, colocando como se fosse uma questão adotada pela identidade de gênero e não uma questão política entre correntes do PSOL no Estado de São Paulo.
Todavia, o Jornalista ao tornar pública a sua posição pessoal na live, ou seja, pela ótica da identidade de gênero da Deputada Federal Erika Hilton por ser mulher trans, acaba desprezando o grupamento político da parlamentar, optando por personalizar e sexualizar o debate de modo raso, sem abordar questões científicas sobre a transexualidade e não falta profissional qualificado disposto ao debate. Foram mais de duas horas de live em que prevaleceu o preconceito do começo ao fim, inclusive, com desrespeito intelectual, por exemplo, o palestrante Guilherme afirma que o levantamento de assassinatos de pessoas trans “é mentiroso”, “é falsidade” ... porém, mais que falta de ética, é a desconsideração ou desconhecimento quanto às pesquisas que são adotadas para se apurar dados de homicídios de pessoas trans no Brasil.
Inclusive, com o intuito de evitar postura antiética, bastaria uma simples pesquisa na rede mundial de computadores para se verificar em como se procede o levantamento da quantificação de homicídio de pessoas trans. As afirmações do palestrante foram e são um desserviço perante aos dados, sem qualquer postura científica, mas com “achismo”. O grupamento político Unidade Marxista – UMA – tem o direito de externar seu posicionamento, é fato, mas deveria trazer dados técnicos e científicos, ainda mais na rede mundial de computadores, acabaram por ofender e desrespeitar profissionais e pesquisadores que estão tanto tempo em pesquisas, palestras, artigos e livros, além de palestrantes poderiam verificar dados que constam no site da ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, onde há a informação quanto aos dossiês anuais:
“(...) SOBRE OS DOSSIÊS:
A metodologia e demais informações sobre fontes de dados constam nas respectivas pesquisas. Trabalhamos com informações públicas, que foram compiladas através da divulgação de casos publicados na mídia que podem ser encontrados em diversos mecanismos de buscas. A pesquisa publicada pela ANTRA é acompanhada pelo comitê de ética da instituição e consta com a participação de pesquisadores e experts de diversas áreas, além das instituições – nacionais e internacionais, que apoiam a publicação e ratificam sua importância para o enfrentamento da violência contra pessoas trans brasileiras. (...)”
Dados disponíveis in Associação Nacional de Travestis e Transexuais – A Maior Rede de Pessoas Trans do Brasil Importante relembrar pesquisas realizadas pelo Professor e Antropólogo da
UFBA, Dr. Luiz Mott, que desde 1960, faz levantamento quanto aos assassinatos de homossexuais no Brasil.
Para ilustrar a discussão quanto às pesquisas do Ilustre Professor Emérito da UFBA, em 24/11/2010, o Professor Dr. Luiz Mott foi convidado pela Câmara dos Deputados, Comissão de Direitos Humanos e palestrou sobre o tema e consta nos Anais da casa o link Antropólogo relata aumento de assassinatos de LGBT em todo o País - Notícias - Portal da Câmara dos Deputados, ainda disponível para pesquisa. As pesquisas do Professor Dr. Luiz Mott constam da rede mundial de computadores e pode-se afirmar que os convidados do Jornalista Leandro Fortes fizeram ilações, falas sem qualquer preocupação para com a verdade ou saber acumulado sobre dados colhidos com rigor científico e com compromisso ético.
Os palestrantes se apresentaram como sendo marxistas, mas, temos que relembrar que Karl Marx e seus contemporâneos não discutiram identidade de gênero. Contextualizando o período, a teoria marxista clássica debruçou-se sobre a opressão das mulheres e a estrutura familiar no modo de produção capitalista, sem discutir a homossexualidade. Importante relembrar, também, que o termo “transexual” foi criado em meados do século XX e não no século XIX, quando da existência de Karl Marx e outros teóricos seus contemporâneos. Ao pesquisar grupos que se autodenominam “marxistas”, tem grupo que opta por utilizar a análise materialista, quanto metodologia, segundo o legado de Karl Marx, quando se estuda a identidade de gênero e defendem a emancipação de todas as formas de dominação associadas ao sexo. E há outras vertentes que utilizam a linha do marxismo dogmático, totalmente a-histórico, ou seja, não utilizam o marxismo como método de análise, mas tão somente “transportam” fatos dos dias atuais para a época vivida por Karl Marx e seus contemporâneos. Contudo, fica patente a falta de fundamento científico, fica patente que desconsideram a história dos povos e a construção social através dos séculos.
A live cometeu outros equívocos, por exemplo, ao discursar sobre disforia de gênero, o palestrante comete desonestidade intelectual ao aligeirar a questão desconsiderando que “(...) a angústia ou sofrimento clínico causado por uma incongruência entre a identidade de gênero de uma pessoa (como ela se sente) e o sexo que lhe foi atribuído ao nascimento (como foi rotulada biologicamente) (...)”, inclusive, porque nem toda pessoa transgênero tem disforia e nem se trata de escolha, mas de um sofrimento psicológico e não é dado pela identidade de gênero, mas sim o desconforto e estresse que a situação causa. Essa postura do palestrante demonstra total desconhecimento sobre o tema que tentou abordar, fica notório o conhecimento insuficiente sobre o tema e sem qualquer acúmulo para proferir palestra, não passando de afirmações fundamentadas em “achismo”.
Os dois palestrantes, em algumas falas, tornam a discussão mais bizarra ainda, por exemplo, quando afirmam “que a gente tem que entender que a sociedade espera papéis que homens e mulheres ...”, essa lógica também é a-histórica, uma vez que colocam questões atemporais, trazendo as teses supostamente marxista do ano de 1848. É necessário rebater essas posturas que não partem de pesquisas e nem se preocupam com metodologia científica, mas com postura pseudocientífica, sem fundamento, se pautando em achismo e se impondo como corrente ideológica abrigada em partido político. Quando se afirmar que se trata de ciência, estará se pautando em fundamento científico, logo, não poderá “transportar” dados entre períodos históricos, uma vez que estará sendo a-histórico, anticientífico.
Pode-se dizer que transexualidade não é um ativismo político, é uma realidade na identidade de gênero, não se está discutindo características biológicas ou anatômicas, mas falando de pessoas que se identificam com gênero diferente do seu sexo biológico e que se dá na sociedade numa construção social e cultural. Se essas questões não forem entendidas, pode-se afirmar que há desrespeito à pessoa e a sua liberdade, personalíssima quanto à pessoa humana. Inclusive, a live passa a impressão de que não se estão falando de pessoas, aliás, que sofrem, que têm desejos, que tem esperança, que buscam o respeito, que buscam o reconhecimento e seu direito de estar presente na sociedade, que são humanos, que precisam sobreviver, de ter trabalho, de ter casa e um lugar de acolhimento/ afeto.
Enfim, a live comete erros crassos, não só por ignorar o acúmulo de saberes, de pesquisas e posicionamentos em diversas áreas, em especial, no ramo da Saúde Mental e no Direito, que tratam questões sociais sensíveis e jamais poderão cometer o equívoco do desserviço contra pessoas que lutam para não serem mortas.
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