Espontaneidade e consciência revolucionária: O que fazer com o sindicato mais importante em Salvador?

Espontaneidade e consciência revolucionária: O que fazer com o sindicato mais importante em Salvador?

Por: O Poder Popular ·
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Por Andre Lima - militante da UJC-BA

Nos últimos meses nos deparamos com o aprofundamento de temas importantes relacionados à classe trabalhadora; vou mais adiante, desde o fim de 2025, em meio à PEC da Bandidagem, trabalhadores e trabalhadoras do Brasil inteiro se somaram às fileiras das avenidas em defesa de sua própria soberania. Nesse contexto, como não falar do proletariado soteropolitano que tem construído acúmulos tímidos, mas importantes de ações políticas nos últimos meses? Como não refletir sobre a degradação ideológica na figura do sindicato? O que fazer com o Sindicato dos Rodoviários?

Sabemos, através da histórica tradição Marxista-Leninista, que os sindicatos possuem caráter ontológico na organização proletária, funcionando como aglutinador essencial ao desenvolvimento de ferramentas de luta imediata contra as estruturas patronais. Lenin apontaria para o embrião da consciência revolucionária. Algo prévio ao despertar emancipatório, faltando apenas a própria consciência de que não existe conciliação de classes em uma sociedade necessariamente dicotomizada pelas classes. Mas, voltemos ao debate central: Trabalhadores rodoviários deflagram greve após quase 50 dias de negociação com os patrões sem sucesso. Esse movimento não durou metade de um dia e trouxe alguns ajustes fundamentais à categoria em Salvador: Reajuste salarial à 4%, reajuste do ticket alimentação à 4%, grupo de trabalho (GT) para debater diminuição de carga horária, horas extras opcionais aos fins de semana, entre outras.

A força do sindicato demonstrou também o que Lênin apontava como limitação tática no final do século XIX. A espontaneidade proletária elucida seu poder na mesa de negociação; poder válido e fundamental, mas nada além de imediato e econômico na maioria das vezes. Em paralelo a isso, cresce cada vez mais o descontentamento da população, fruto da ideologia dominante, mas também da grande parcela de culpa que carregam as correntes sindicais à frente do Sindicato dos Rodoviários da Bahia.

Eu diria que essa nova espontaneidade é superficialmente transformada em consciência, já que a presença de correntes vinculadas a partidos progressistas é evidente. Lenin explicou em “O que fazer?” a tarefa dos Socialistas na aglutinação dos sindicatos à consciência revolucionária, única capaz de retirar os trabalhadores das correntes patronais do Capital. Aqui, vemos como esses setores governistas oportunistas caminharam por todo o processo de acúmulo de forças até liderarem as organizações em massa - nada diferente com o sindicato dos rodoviários - seguindo os passos enunciados pelo Camarada, mas direcionando o poder sindical ao declínio. Podendo, enfim, controlar o papel desse grande poder, optaram pela conciliação e rebaixaram suas pautas, reconduzindo o sindicato à nova espontaneidade: Espontaneidade Consciente (se é que eu posso dizer isso)  

Era, e continua sendo fundamental à organização proletária tomar para si esse papel na construção conjunta de um programa político revolucionário, afinal, ou se tem consciência burguesa ou proletária, mas a espontaneidade ou a conciliação permanente só atendem aos desejos capitalistas. O título do texto tem uma pergunta candente e que não pode ser desconsiderada pelos comunistas: O que fazer com o sindicato dos rodoviários uma vez que seu papel é central para todo funcionamento na cidade? Como conduzir as frustrações, angústias e raiva de outros setores proletários dependentes do transporte público?

Não quero me demorar a refletir, pois a tarefa de acumular forças também faz parte do setor da mobilidade urbana. O fortalecimento de uma corrente sindical capaz de articular os anseios da categoria e os da população se faz vigente, visto que a tarefa basal dos comunistas é resgatar a unidade proletária em tempos de tamanha dispersão, mas isso não se faz com discursos subjetivos; o povo deve sentir impacto material.

No ano de 2023, a Prefeitura Municipal de Salvador gastou mais de R$300 milhões em subsídios, incentivos fiscais e perdão de dívidas às empresas privadas responsáveis pelo Transporte “Público” (OT Trans e Plataforma). Empresas privadas que não cumprem contrato e que, em tese, deveriam desafogar o gasto público com transporte, mas que ao fim de 2025 receberam mais de R$67 milhões em subsídios.

Pautar a estatização do Sistema Integra (OT Trans e Plataforma) é urgente, afinal, o município já arca com um montante multi-milionário enquanto as ações lucrativas ficam para os acionistas do grupo (não se enganem, se fosse um negócio ruim, as empresas atuais já teriam ido embora). O segundo ponto chave passa pela transformação das pautas sindicais em pautas caras aos trabalhadores soteropolitanos em geral: mobilização por melhorias econômicas e por melhores condições de trabalho, alinhadas à redução do preço da passagem de Ônibus. Essa redução estaria no horizonte estratégico da Tarifa Zero, o que poderia gerar efeito em cadeia no poder de consumo da classe trabalhadora, com estudos apontando um retorno bilionário anual de 45 bilhões de reais aos bolsos da população. Obviamente é mais que relevante o papel central que teria o sindicato dos rodoviários nesse processo, que só poderia alcançar tais condições materiais a partir da Consciência revolucionária. É preciso dizer que existem um pouco mais de 100 municípios no Brasil que adotam a Tarifa Zero, dado concreto e material da possibilidade dessa implementação, o que não responderia muito coisa, já que os grupos empresariais (Weipar e Gevan) responsáveis pelo transporte rodoviário possuem tradição histórica.

Não seriam esses pontos manuais de enganação política, mas um aceno ao cenário colocado em questão no início do texto. Percebem aqui? Pautas restritas de uma categoria que quando aceitas recaem sobre a massa, encontram eco para amplificação. Pautas de categorias específicas que enxergam um projeto de emancipação, ainda que gradual, de classe e não categoria, convencem e arrastam. O fim do refluxo comunista para se aproximar e devemos estar preparados para desempenhar a tarefa mais importante. A tímida e ainda pequena mobilização proletária parece crescer, mesmo que o seu crescimento, por si só, não diga nada à consciência revolucionária. No entanto, eis a nossa tarefa sendo evidenciada mais uma vez em um novo tempo.

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