Arthur Soares, militante do Partido Comunista Brasileiro e da União da Juventude Comunista.
O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. (ENGELS, Friedrich. A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 11. Ed. Rio de Janeiro: Viva Livros, 2022)
A Juventude carrega, historicamente, o papel de rejuvenescer o mundo, de formular novas ideias, novas modas, novas tradições, como diria Che “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, da mesma forma o comunismo é a juventude do mundo, apresenta o que há de mais novo e revolucionário. Todavia, tanto os jovens quanto os comunistas ainda se encontram embebidos pelos diversos desvios conservadores, como a defesa de relações monogâmicas, fruto da estrutura capitalista.
Atualmente a monogamia é entendida como sinônimo de amor, um amor romântico e natural. Quando um casal inicia um namoro as regras que constituem essa relação e os seus limites já estão pressupostos pela sociedade, todos sabem o que esperar de uma relação monogâmica e o que esperar das partes. Também é pressuposto o objetivo reprodutor desse relacionamento, a necessidade de formar família, ter filhos. Em uma breve análise no dicionário português, sobre a definição das palavras: cônjuge, casal e monogamia, veremos que todas irão desaguar no mesmo conceito, a relação monogâmica entre duas partes. Esse fenômeno será conceituado como trilogia central amor-casal-monogamia heterossexualidade e reprodução, por Brigitte Vasallo1.
É comum que essas partes se distanciem de suas amizades e até de seus familiares, vez que, “naturalmente”, o papel da pessoa companheira amorosa é importante e grande demais para ser dividida com outras relações “menos importantes”. A pessoa companheira amorosa se torna a base para lidar com toda felicidade, tristeza, frustação e conquista, de forma que é esperado que as partes compartilhem todos os sentimentos a todo momento. A monogamia depende de uma hierarquia relacional onde a pessoa companheira amorosa se torna a pessoa mais importante da vida da parceira.
O conceito cristão de casamento originado em Gênesis 2:24 “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” se tornou o horizonte dos relacionamentos monogâmicos, a união divina, a indissociabilidade entre as partes, o apagamento da individualidade da pessoa companheira amorosa em busca do nascimento desse novo ser transmutado.
A monogamia é parte fundamental da superestrutura capitalista, sendo o motivo de diversas opressões e agressões causadas em relacionamentos “amorosos”.
No Brasil a tese de legítima defesa da honra do acusado como estratégia de defesa, em casos de feminicídio ou agressões contra a mulher, só foi considerada inconstitucional em 2023 (ADPF 779). A tese era utilizada pela defesa dos acusados de assassinato de mulheres no Tribunal do Júri, como excludente de ilicitude, justificando o ato do acusado como socialmente aceitável, de forma que a construção do argumento era que a agressão ou assassinato era justificável quando a vítima tivesse sido infiel, uma vez que o agressor teria tido a sua honra ferida.
Os relacionamentos monogâmicos passam a ser relações de posse e violências, seja física, mental ou patrimonial. As pessoas companheiras amorosas se tornam cada vez mais dependentes uma das outras, de forma que a manipulação de uma das partes se torna prática corriqueira. Diante de toda problemática estrutural apresentada, faz-se necessário o rompimento com a monogamia e a construção da não monogamia.
Quando se fala de não monogamia o interlocutor já apresenta todas as suas defesas, um arsenal de jargões, piadas e inseguranças que reforçam a política monogâmica. A não monogamia é vista como uma libertinagem, de forma que, num primeiro momento, é inconcebível para o monogâmico pensar outras formas de se relacionar.
Diferente da monogamia, a não monogamia não possui uma forma, ela não diz o que é e sim o que não é. A construção de um relacionamento não monogâmico só pode ser realizada pelas pessoas companheiras amorosas que participam desse relacionamento, logo não há pressupostos no relacionamento não monogâmico.
A escolha não monogâmica é uma escolha política, não se trata sobre relacionamento aberto, sobre trisal, sobre marmitas ou sobre a liberdade de ter diversas relações sexuais sem culpa cristã. Um relacionamento não monogâmico pode ser exclusivo sexualmente (manutenção de apenas um parceiro sexual), pode ser plural (múltiplas pessoas companheiras amorosas), o ponto não é a relação sexual, é quebrar a hierarquia das relações amorosas.
Como toda escolha política que rompe padrões, a não monogamia apresenta diversos desafios, o desafio de construir relacionamentos amorosos horizontais, de forma que todos os amores tenham o mesmo peso, seja o amor por amizades, o amor romântico ou outras formas de amar. O desafio de romper com nossa socialização monogâmica, de aprender a lidar com ciúmes, com posse, com o medo da perda.
A não monogamia busca uma rede de apoio, com pessoas amadas e que poderão, coletivamente, dar suporte uma para as outras, sem hierarquia, sem a necessidade de que a pessoa companheira amorosa cumpra o papel de prestar todo suporte necessário.
Desconstruir o amor monogâmico, superando todas as suas mazelas, toda sua toxicidade, toda sua estrutura de opressão e violência, deve ser a escolha política dos revolucionários.
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