Três meses de transgressão e resistência: viva a TransOcupação Marcela Aguiar!
Coletivo LGBT Comunista em Mato Grosso do Sul
Junho de 2026
Neste domingo (28), a TransOcupação Marcela Aguiar completa três meses de vida em luta e resistência. Construída a partir da iniciativa de movimentos sociais, a Marcela - como é carinhosamente chamada - se consolida ao fim de seu primeiro trimestre como um espaço de luta coletiva e organização popular da comunidade LGBTI+ em Mato Grosso do Sul.
Localizado no centro da capital, Campo Grande, e sob posse da União, o imóvel já serviu de sede para sindicatos e organizações estudantis no passado, mas estava há anos abandonado e depredado. Diante disso, organizações sociais LGBTI+ solicitaram a criação de uma instituição de acolhimento no local, voltada para pessoas da comunidade vítimas de violência e/ou em situação de vulnerabilidade social e econômica.
Após anos de negociações frustradas com os representantes do Estado, representantes de movimentos sociais ligados à luta LGBTI+, sob liderança da Associação de Travestis e Transsexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS), iniciaram em 28 de março deste ano a ocupação do imóvel. Desde então, o que parecia um cenário de filme de terror vem sendo transformado em um espaço vivo, de coletividade, resistência e aconchego. Mais que isso, a TransOcupação é hoje um santuário de esperança, em tempos sombrios para a comunidade LGBT+ sul-matogrossense.
Seguindo a toada transfóbica e neofascista das elites estadunidenses e britânicas, a Câmara Municipal de Campo Grande tem sido palco de um espetáculo de horrores. Em 26 de março deste ano, dois dias antes do início da TransOcupação, os vereadores passaram a proposta que proíbe o acesso de mulheres trans e travestis aos banheiros femininos. Esse episódio se deu seis meses após a aprovação do projeto de lei que proíbe a participação de atletas trans em campeonatos esportivos.
“Essa casa para nós é muito importante. Para mim, enquanto uma pessoa trans e indígena, sem condições financeiras, preciso estudar e me manter, não tenho onde ficar. Esse espaço é histórico para nós. A gente não tem para onde ir, é aqui ou a rua.”, diz Samantha Terena, mulher trans, indígena e estudante na área da saúde.
Complementando essa perspectiva, Morgana de Avalon, pessoa não-binária e uma das moradoras da TransOcupação, afirma: “É importante para a gente ter um recomeço. É um lugar que precisa ser visto pela sociedade. É um lugar acolhedor, tranquilo, e precisamos daquele olhar mais maciço para tudo o que tem dentro ou fora da ocupação. É importante ter pessoas que estão realmente preocupadas com a causa”.
Nesse cenário, a existência da TransOcupação enquanto um movimento de luta organizada liderado por pessoas trans e travestis emerge e ressoa como um grito de resistência às tentativas de apagamento, perseguição e neutralização da comunidade LGBTI+. Não à toa, seu nome carrega um legado de força e determinação: Marcela Aguiar foi uma travesti com histórico de militância pela saúde de pessoas LGBTI+ de Mato Grosso do Sul, atuando nas frentes de prevenção ao HIV/AIDS, de combate à sorofobia e de redução de danos.
Vítima da discriminação, sua trajetória foi interrompida precocemente por sequelas de uma violência: ao sair de uma consulta médica, enquanto aguardava o ônibus, Marcela foi alvejada por um carro desconhecido. O episódio resultou em graves problemas de mobilidade e os responsáveis pelo crime nunca foram encontrados. Apesar do trágico fim, o luto se transformou em revolta e sua memória voltou a pulsar e ecoar através de cada vida e de cada voz engajada com a TransOcupação.
Sua amiga pessoal e companheira de luta, Cris Stefany é uma das precursoras do movimento LGBTI+ em Mato Grosso do Sul e foi responsável pela convocação inicial aos movimentos sociais em março. “Vemos muitas pessoas LGBT sem moradia, em situação de rua e na prostituição, a maioria transfemininas e travestis em vulnerabilidade. Quando conseguimos algum emprego ou forma de subsistência que não seja a prostituição, infelizmente a maioria das vezes são serviços precarizados e com salários baixos. Então a gente precisa pensar na melhora da qualidade de vida das pessoas trans ", diz Cris.
A TransOcupação segue até hoje sem acesso regularizado a energia elétrica e água encanada, mesmo com comunicações formais ao Governo Federal e à Superintendência do Patrimônio da União (SPU). A manutenção do espaço mesmo em condições desfavoráveis tem se mantido graças às parcerias entre movimentos sociais e pessoas apoiadoras independentes. Fundadora da ATTMS, Cris resgata a importância da participação popular na construção: “A gente conseguiu reunir todos os coletivos possíveis que tínhamos de pessoas trans e LGBT na cidade (...) para consolidar nossa luta por moradia digna, por inclusão e pela garantia de direitos elementares. Se você não tem onde morar, se você não tem o que comer, se você não tem o mínimo, você não tem nada.”.
É diante de toda essa vulnerabilidade que se impõe principalmente sobre os corpos trans que a TransOcupação surge como uma uma alternativa de vida e de contestação à violenta ordem da cisheteronorma capitalista. “A existência de uma TransOcupação é um marco histórico da luta LGBTQIAPN+ no estado. Demarca um novo capítulo de luta, onde, para além de somente reagir a ações políticas que nos caçam e nos contentar com políticas que muitas vezes são sucateadas com o tempo, tomamos a partida de uma ação, uma iniciativa nossa, uma exigência.” declara Amélia de Mattos, travesti não binária, artista e estudante de Psicologia. “É um local de esquiva da fome, da perdição, da rua, das margens. A invasão do centro trazendo transformação, cultura, comunidade e lar para corpos aos quais isso sempre é negado. É construção de comunidade, luta, materialidade e significado”.
De forma muito simbólica, no Dia Internacional do Orgulho LGBTI+ a TransOcupação celebra três meses de vida, luta e, sobretudo, de esperança. Em um mundo cada vez mais dominado e destruído pelas elites do Capital, em que o ódio às pessoas LGBTI+ se apresenta como um negócio lucrativo e como uma ferramenta de dominação e manipulação das massas, resistir e lutar é a única alternativa. Viva a luta popular! Viva a TransOcupação Marcela Aguiar!
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