José Ernesto Alves Grisa - Prof. Aposentado do IFFarroupilha. Mestre em Sociologia. Militante do PCB em Alegrete/RS
“As ideias dominantes são as ideias da classe dominante de uma determinada época”, essa frase de Karl Marx nos explica, em muitos contextos, como a ideologia da burguesia, no caso, a agrária, impõe-se a todo tecido social e impregna a mente dos dominados, que passam a reproduzi-la como verdade “inquestionável”.
Assim também foi e é o tradicionalismo gauchesco, uma Cultura Inventada, que teve como objetivo “perpetuar” uma tradição de dominação não só ideológica, mas política e econômica de uma classe social, a do latifundiário, do fazendeiro escravagista e, mais recentemente, do Agro. Classe essa que tentaram passar através da sociologia positivista como a do fazendeiro bonzinho, da democracia racial, como se aqui, no RS, a escravidão não tivesse as marcas do açoite, da morte e da senzala.
Para tanto, foram disseminados aparelhos ideológicos como CTGs, piquetes, programas de rádio, músicas, televisão, invasão de todo espaço social, da Escola como palco de propagação, com tentativas, inclusive, de impor uma disciplina pedagógica, que veladamente acaba acontecendo ainda que não na legislação, mas na prática.
Uma ideologia propagada em todos os meses do ano, que se abastece de robustos recursos e verbas públicas destinadas a sua preservação, e ainda mais, em anos eleitorais como este, o volume de recursos se multiplicam por ocasião do mercado eleitoral, os aparelhos ideológicos são acionados, CTGs e piquetes são espaços coletivos criados e que exercem uma estratégia de troca da comida (churrasco, carreteiro, puchero, atrações culturais, show, diversão gratuitos pela cantada do voto e passagem do santinho, sempre com o financiamento de um político ou partido. É onde a extrema direita surfa com o seu caldo de cultura que acompanha o Tradicionalismo: o machismo, homofobia, racismo, sexismo (baseado na submissão feminina) etc. Uma influência objetiva das relações sociais nas quais estão inseridos, e a dita “esquerda” liberal, transformista, na sua prática da conciliação de classe, se omite através do silêncio oportunista.
A farsa começa na nomenclatura, nunca foi uma revolução (farroupilha), pois estas modificam as estruturas políticas da sociedade, foi uma revolta da classe estancieira contra o fisco sobre o valor do charque e da carne, que colocou na linha de frente das batalhas, peões, negros escravizados (em troca da liberdade que nunca aconteceu), mercenários, jovens e mulheres pobres. Até pouco tempo, eles tentaram esconder o Massacre de Porongos, quando o bandido David Canabarro, nome de logradouros, praças, ruas e até de cidade, desarmou os lanceiros para serem massacrados pelas forças imperiais, numa negociata feita com Caxias. Este é mais um legado que a história oficial (a dos vencedores) tenta deturpar. O motivo da chacina é que os negros não poderiam ter “liberdade” num regime ainda escravagista. Isso às vésperas das negociações de paz, aliás, foi uma rendição maquiada.
Aqui deve ser o único lugar do mundo em que se comemora uma derrota, o 20 de setembro. É triste ver negros alienados e sem consciência racial e de classe, numa servidão voluntária junto à patronagem, como se nada tivesse acontecido na história de Porongos, enaltecidos pelo identitarismo da inclusão ou por reconhecimento, assim como pobres peões explorados, num regime de semi escravidão o ano todo, felizes, desfilando no piquete do Patrão, e uma classe média idiotizada, que não possui nenhum palmo de terra, nem no cemitério, mas se acha!
Por tudo isso, encerro este breve texto, também um desabafo contra o servilismo consciente, com a letra de uma música apresentada na Ronda da Canção Nativa de Alegrete, em 1982, com letra de Cyro Martins Filho e música de Jader Cardoso da Silva que, lógico, não passou pelo crivo do “selecionado” júri de cartas marcadas.
VERDADE
Não vim aqui para cantar
O que outros já cantaram
Eu canto para derrubar
O que os anos levantaram
A Muralha do silêncio
Feita com gritos de morte
Caudais de corpos cansados
De quem morreu por mentiras
Bandeiras de falsidades
Rebanho dos desgraçados
Não posso sentir orgulho
De ser o que agora sou
Esmaga-me a mesma mão
Que um dia de mim se armou
Por isso não vou cantar
Coxilhas que nunca tive
Nem falar de liberdade
Não sou semideus centauro
Sou homem, fui enganado
E agora quero verdade
Sombras que marcham
Não há beleza na fome
Fique em meu braço
A força, a fé nesses homens
Para o dia de rasgar
Lenços que são mordaças
Palavras que são mortalhas
Mundo velho sem porteira
Virar de patas pro ar
Choram as crias do nada
E as mulheres de ninguém
Se isso é laurel de guerra
Eu pergunto: para quem?
Deixo os covardes cantando
Tempos que não existiram
Monto e empunho a nova lança
Vou beber do sague certo
Deusa morreu e agora é tempo
De luta, e não de lembranças.
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