Entre a Crise do Presente e os Futuros Perdidos

Entre a Crise do Presente e os Futuros Perdidos

Por: O Poder Popular ·
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Gustavo Gustavo, membro do Comitê Regional do Paraná do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira. É professor de educação infantil em Pontal do Paraná, licenciado em História e Pedagogia, e pós-graduando em Alternativas para uma Nova Educação (ANE) pela UFPR.

"A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece."

Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere

"Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência."

Karl Marx, Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política

"O lento cancelamento do futuro foi acompanhado por uma deflação de expectativas"

Mark Fisher, Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos

Estamos vivendo um período de transição na luta de classes. O ciclo político que, durante décadas, organizou grande parte da esquerda brasileira em torno do Projeto Democrático Popular já se esgotou e ainda não surgiu um novo projeto capaz de reorganizar a classe trabalhadora e unificar suas diferentes lutas.

A fragmentação que hoje caracteriza a esquerda não tem como ser compreendida olhando apenas para as disputas entre organizações ou suas divergências táticas. Essa fragmentação é resultante de uma mudança histórica muito mais profunda, das transformações do próprio capitalismo e das dificuldades da classe trabalhadora, de reconstruir um horizonte político comum.

Ao mesmo tempo em que destrói direitos, precariza o trabalho, concentra riqueza, intensifica a devastação ambiental e deteriora as condições materiais de existência da classe trabalhadora, o capitalismo contemporâneo também modifica profundamente a forma como as pessoas vivem, se relacionam e fazem política. O neoliberalismo não atua apenas na economia. Ele engendra o individualismo, valorizando a competição, incentivando a busca incessante por mais desempenho e reconhecimento e enfraquecendo os vínculos coletivos que historicamente sustentaram a organização popular. E as organizações de esquerda não estão imunes a essas transformações, que atravessam toda a sociedade e, inevitavelmente, também insistem em aparecer em nossa prática política.

Por isso, não basta analisar a crise da esquerda pensando apenas em erros de direção, escolhas eleitorais ou problemas organizativos sem considerar o processo histórico mais amplo. Se queremos que nossa tática corresponda às exigências da etapa atual da luta de classes, precisamos compreender tanto as transformações objetivas ocorridas quanto às formas de consciência e de sociabilidade que delas resultam.

Durante boa parte do século XX, a esquerda brasileira acumulou força porque sua atuação tática não se restringia às disputas institucionais, mas era também constituída por um trabalho de base contínuo. Sindicatos, associações de moradores, movimentos populares, pastorais, espaços culturais, organizações estudantis e diferentes formas de convivência coletiva traziam uma presença permanente junto à classe trabalhadora. A organização popular não estava limitada a esporádicas mobilizações ou à institucionalidade.

Essa forma de organização começou a se alterar com a derrota das experiências do socialismo real, como a dissolução da União Soviética e a crise do movimento comunista internacional. No Brasil, essas transformações coincidiram com a consolidação do Projeto Democrático Popular, através da conquista de importantes espaços institucionais e da chegada de setores da esquerda ao Estado, que acabaram por deslocar, gradualmente, o eixo da estratégia política para a disputa eleitoral e a governabilidade. Isso não se tratou de uma mudança imediata, mas de um processo de adequação às instituições burguesas. Esse projeto, ao longo do tempo, reduziu a centralidade do trabalho de base, enfraqueceu a organização popular permanente e aproximou parte da esquerda da suposta conciliação de classes.

Na prática, a relação entre estratégia e tática foi invertida. As necessidades imediatas da governabilidade passaram a ditar a atuação política, subordinando o horizonte estratégico da revolução socialista às exigências conjunturais da disputa institucional.

Esse deslocamento de eixo produziu consequências que ainda hoje sentimos. O afastamento entre as organizações políticas e base social, o esvaziamento de muitos espaços de participação popular e a crescente dependência das disputas eleitorais reduziram a capacidade de construir uma organização permanente entre a classe trabalhadora.

Quando esse projeto entrou em crise, suas limitações ficaram ainda mais explícitas. As Jornadas de Junho de 2013 e, em seguida, o golpe parlamentar de 2016 demonstram esse esgotamento. Aqui se encerrou um ciclo histórico de lutas desse projeto político. O resultado é o período de fragmentação que desde então vivemos, no qual diferentes organizações se pulverizaram e passaram a disputar caminhos distintos sem um horizonte estratégico comum capaz de unificá-las.

Embora o PT permaneça como a principal força eleitoral da esquerda brasileira, já não exerce esse papel de horizonte político que desempenhou nas décadas anteriores. Em grande medida, sua força atual repousa mais na memória de parte do eleitorado sobre o ciclo que protagonizou e na percepção de outra parte do eleitorado, marcada por um pragmatismo excessivamente simplista de que este representa uma alternativa real ao fascismo (sobre esse ponto, deixo a indicação do texto Por que o fascismo cresce no Brasil? ).

Essa situação toda lembra aquilo que Gramsci chamou de interregno: um momento em que a antiga forma de organizar a realidade já não responde às novas condições históricas, enquanto a nova ainda não conseguiu se consolidar. Nesses períodos, a fragmentação tende a se aprofundar. Disputas de projetos, divergências, surgimento de novas organizações, diferentes estratégias em disputa e a classe trabalhadora sem reconhecer um projeto político próprio capaz de orientar sua ação coletiva, abrindo espaço para o avanço do irracionalismo, do discurso de ódio e das falsas soluções oferecidas pelo fascismo.

Assim, podemos verificar que a crise do presente não é apenas resultado da falta de estratégia comum. É também porque nela se reproduzem as formas de sociabilidade produzidas pelo capital, que moldam comportamentos e prática políticas. Compreender essa relação é fundamental para que possamos pensar os caminhos que devemos trilhar.

O neoliberalismo não é apenas um conjunto de políticas econômicas. Ao transformar todas as dimensões da vida em espaços de competição, desempenho e consumo, ele produz uma forma específica de viver e interpretar o mundo. A valorização do sucesso individual, da autopromoção, do ego, da vaidade e da busca constante por validação, enfraquecem a noção de pertencimento coletivo e naturaliza relações marcadas pela disputa entre indivíduos serializados. Essa lógica atravessa o trabalho, a educação, a cultura e também as organizações populares.

Seria um erro imaginar que militantes revolucionários estão imunes a essas determinações, pois fomos forjados na mesma sociedade que pretendemos destruir. E essas contradições do capitalismo também se expressam em nossas práticas, em nossas relações internas e na maneira como compreendemos a ação política. Não se trata de um problema moral ou de uma falha individual, mas da influência objetiva das relações sociais nas quais estamos inseridos.

Isso ajuda a compreender porque setores que se apresentam como radicais não raramente acabam reproduzindo formas de consciência produzidas pelo próprio neoliberalismo. Em vez de coletividade, disciplina militante e construção popular, frequentemente vemos militantes preocupados com performance individual, reconhecimento pessoal, disputa de imagem e com a dificuldade de construir processos coletivos duradouros. Essas práticas não surgem do acaso: expressam a interiorização da ideologia neoliberal e revelam como as relações sociais capitalistas continuam moldando a prática daqueles que buscam combatê-las.

As redes sociais potencializam esse fenômeno. Elas ampliam a circulação de informações e facilitam a comunicação entre organizações, mas com ela temos toda uma lógica baseada na visibilidade, na resposta apressada aos acontecimentos e na busca constante por engajamento. Pouco a pouco, a política vai deixando de ser orientada pela construção paciente de forças e passa a ser guiada por essa necessidade de repercussão.

Esse deslocamento modifica inclusive os critérios pelos quais avaliamos nossa própria atuação. Muitas vezes, uma atividade é considerada bem-sucedida porque produziu boas imagens para divulgação e gerou grande alcance nas redes. Tudo isso pode ter sua importância, mas não responde à questão central: a atividade fortaleceu a organização autônoma da classe trabalhadora? Criou novos vínculos? Ampliou nossa capacidade de mobilização? Formou novas lideranças? Se essas perguntas deixam de orientar nossa prática, corremos o risco de substituir a organização pela visibilidade.

E essa lógica ainda aparece nas próprias mobilizações de rua. Em diversos momentos conseguimos reunir pessoas, mas isso nem sempre significa que estamos acumulando força política. Não raramente, os atos são completamente previsíveis, excessivamente pacifistas, sem paralisação real da circulação econômica, sem ocupações, sem enfrentamento e sem construção concreta de poder popular. Muitas vezes seguem trajetos, dias e horários que não fazem qualquer sentido do ponto de vista estratégico, sem preocupação real com segurança (que não deve ser confundido com pacifismo), organização ou integração entre as forças que compõem as mobilizações. Em vez de representar momentos de avanço da organização popular, acabam reduzidos a rituais que se repetem quase da mesma maneira, independentemente da conjuntura, limitados a percursos previamente acordados com as forças de repressão do Estado, e sem preocupação em produzir qualquer impacto concreto sobre o funcionamento da cidade ou sobre os interesses do capital.

Não se trata, evidentemente, de defender ações voluntaristas ou confrontos desprovidos de estratégia. A radicalidade política não se mede pelo grau de enfrentamento imediato nem pela disposição para o conflito em si. Ela depende da capacidade de cada ação contribuir para a organização da classe trabalhadora, ampliar sua confiança coletiva e acumular forças para etapas futuras da luta. Quando perdemos essa perspectiva, mesmo grandes mobilizações podem produzir poucos resultados além de sua repercussão momentânea.

Isso ocorre pois vivemos uma profunda aceleração do tempo social. As transformações tecnológicas e os novos meios de comunicação comprimiram nossa experiência do tempo e do espaço. A todo instante somos atravessados por novas informações, novas crises, novas polêmicas e novas urgências. Antes que um acontecimento possa ser compreendido em profundidade, outro já ocupa seu lugar.

Nessas condições, cresce a pressão para responder imediatamente a cada fato político, produzir posicionamentos rápidos e acompanhar o ritmo incessante das redes sociais. O planejamento estratégico, que exige continuidade, paciência e capacidade de acumulação, perde espaço para uma política cada vez mais reativa e superficial.

A dificuldade em pensar os processos sociais em sua totalidade histórico-dialética faz com que a realidade apareça como uma sucessão de acontecimentos desconectados, como o feed de rolagem infinita, sempre à espera do próximo acontecimento. Em vez de compreender cada fato como parte das contradições estruturais do capitalismo, somos constantemente levados a apenas reagir ao episódio do momento de maneira isolada. A política tem sido fragmentada porque a própria experiência cotidiana também foi fragmentada.

É justamente contra essa lógica que uma organização revolucionária precisa atuar. Se o capitalismo produz isolamento, imediatismo e competição, nossa tarefa não pode se limitar à denúncia desses fenômenos. Precisamos construir, na prática, formas de organização e convivência que apontem em outra direção. A crítica ao capitalismo ganha muito mais força se acompanhada pela criação de experiências concretas que fortaleçam vínculos coletivos, desenvolvam a solidariedade e ampliem a capacidade de ação organizada da classe trabalhadora.

Ao pensar nossas táticas, não devemos apenas aperfeiçoar nossas palavras de ordem ou elevar o nível da formação teórica. Devemos reconstruir as condições concretas nas quais uma cultura política diferente possa se desenvolver. As pessoas agem coletivamente quando vivem experiências coletivas. A solidariedade, a disciplina, a responsabilidade e o compromisso não surgem de forma espontânea nem são resultado exclusivo do estudo. Elas se formam na prática social, quando participamos de atividades comuns, enfrentamos problemas reais e compartilhamos objetivos coletivos.

Por isso, o trabalho de base não pode ser compreendido apenas como um instrumento de recrutamento ou de mobilização para campanhas específicas. Ele deve constituir um processo permanente de organização popular, capaz de reconstruir a militância como referência política e organizativa para a classe trabalhadora. Onde a lógica do capital produz isolamento, precisamos construir coletividade. Onde se produz competição, precisamos fortalecer a cooperação. Onde se transforma as pessoas em consumidores, precisamos reconstruí-las como sujeitos capazes de agir coletivamente sobre a nossa própria história.

Para isso, precisamos ampliar nossa presença nos espaços onde a vida da classe trabalhadora efetivamente acontece. Não basta aparecermos nos momentos de maior efervescência política. É preciso estarmos presente no cotidiano, conhecendo os problemas concretos das comunidades, dos locais de trabalho, dos espaços de estudo e das diversas formas de organização popular. A confiança política não nasce de discursos bem elaborados, mas da convivência, da solidariedade e da capacidade de construir respostas coletivas para necessidades reais.

Da mesma forma, não podemos tratar a cultura como uma dimensão secundária da luta política. A produção cultural, o lazer, o esporte, a arte e os espaços de convivência são momentos fundamentais da vida social. São também nesses espaços que as pessoas constroem valores, estabelecem vínculos e constroem suas formas de compreender o mundo. Se esse terreno é disputado diariamente pelo capitalismo por meio da indústria cultural e das plataformas digitais, não faz sentido que nós o abandonemos ou o consideremos menos importante do que outras formas de atuação.

Atividades culturais como shows, slams, cineclubes, saraus, grupos de leitura, práticas esportivas, oficinas, festivais, debates públicos e iniciativas semelhantes não são apenas momentos de lazer. Se orientadas por um projeto político revolucionário, podem tornar-se experiências capazes de fortalecer o sentimento de pertencimento, ampliar a confiança entre as pessoas e desenvolver hábitos de cooperação que dificilmente se constroem apenas nas reuniões formais ou nas mobilizações.

Tudo isso aponta para uma questão fundamental: a transformação política não ocorre apenas pela assimilação de ideias corretas. A consciência não muda primeiro para que a prática mude; ela também se transforma no próprio processo da prática organizada. E são nessas práticas que a teoria deixa de ser um conhecimento abstrato e passa a orientar uma prática consciente, permitindo que cada militante compreenda sua atuação como parte de um projeto mais amplo.

A construção desse projeto exige paciência estratégica. Nenhuma organização revolucionária será capaz de superar, sozinha e em pouco tempo, os efeitos de décadas de ofensiva neoliberal. Não existem atalhos. A reconstrução da organização popular será necessariamente um processo longo, desigual e repleto de contradições. Reconhecer essa dificuldade não significa aceitar a fragmentação como algo inevitável, mas como um passo importante na reconstrução da capacidade de ação da classe trabalhadora.

É essa perspectiva que deve orientar nossa atuação. Em vez de medir nosso êxito apenas pelo impacto imediato de cada iniciativa, precisamos perguntar se ela fortalece a organização popular, amplia nossa inserção na classe trabalhadora e contribui para acumular forças em direção a um projeto de transformação social. É essa capacidade de combinar as intervenções nas lutas do presente com a construção paciente das condições para as lutas futuras que difere uma estratégia revolucionária de uma política limitada à administração de urgências.

Com isso, o propósito deste texto não é apresentar uma solução acabada para problemas cuja superação depende de determinações históricas que ultrapassam nossa vontade. A construção de uma alternativa revolucionária não resulta apenas da correção de nossa linha política nem da disposição de nossa militância. Ela depende do desenvolvimento das contradições do próprio capitalismo, da reorganização da classe trabalhadora e da capacidade de construirmos, no interior desse processo, um projeto capaz de unificar suas lutas em torno de um horizonte comum.

Mas reconhecer esses limites não significa assumir uma postura passiva nem aceitar o papel de meros espectadores da história. Se não podemos determinar seu curso, podemos intervir conscientemente nele, acumulando forças, ampliando nossa inserção social e criando as condições para que a classe trabalhadora desenvolva sua capacidade de organização e direção política.

É justamente nesse terreno que se coloca a responsabilidade de uma organização revolucionária: recuperar o sentido estratégico do trabalho de base, fortalecer os espaços de convivência e organização popular, investir na formação política e construir vínculos cada vez mais profundos com a classe trabalhadora.

Cada espaço coletivo criado, cada vínculo de solidariedade fortalecido e cada experiência de organização popular representam antecipações concretas da sociedade que pretendemos construir. E não é porque essas tarefas já sejam o socialismo construído, mas porque são o seu germe. Elas desenvolvem as capacidades humanas e as relações sociais indispensáveis para que o horizonte da transformação revolucionária deixe de ser um futuro perdido e passe a constituir uma possibilidade histórica concreta, enraizada na organização coletiva da própria classe trabalhadora.

Sendo assim, talvez o maior desafio colocado à nossa geração seja justamente esse: reconstruir uma estratégia revolucionária em um período marcado pela fragmentação da classe trabalhadora, pelo predomínio do imediatismo e pela limitação das antigas formas de organização. Isso exige firmeza nos princípios, mas também criatividade para compreender as novas determinações da realidade e coragem para construir caminhos que respondam aos desafios do nosso tempo.

Se conseguirmos articular nossos princípios políticos, trabalho de base, organização popular e formas de sociabilidade baseadas na cooperação e na solidariedade de classe, estaremos dando grandes passos na reconstrução da capacidade de luta da classe trabalhadora. E é somente nesse processo lento, contraditório e necessariamente coletivo, que poderá surgir um novo ciclo histórico capaz de colocar a revolução socialista na ordem do dia da luta de classes.

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