Quando querem destruir a jornalista para apagar a denúncia

Quando querem destruir a jornalista para apagar a denúncia

Por: O Poder Popular ·
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Jessica Santos para o Ponte Jornalismo

Casos recentes envolvendo Natália Viana e Juliana Dal Piva mostram como ameaças, ataques à aparência, sexualização e violência de gênero são usados para tentar desqualificar mulheres que investigam figuras públicas e o poder


Juliana Dal Piva (à esquerda) e Natália Viana, jornalistas citadas no editorial sobre ataques misóginos e tentativas de desqualificação de mulheres que investigam figuras públicas e o poder. Fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil

É uma verdade universalmente reconhecida que, quando se é mulher, seu gênero sempre será questionado quando não gostarem de você ou de seu trabalho. Quando se é mulher jornalista que investiga o poder público, crimes de toda ordem ou quem quer que seja, isso será usado para campanhas coordenadas de ataques, seja por políticos ou grupos misóginos, ameaças e até violência física. Se alguém se sente incomodado pelo seu trabalho, passam a ser colocadas em xeque a sua aparência, sexualidade e vida pessoal para lhe desqualificar. 

É o que está acontecendo com a jornalista e diretora da Agência Pública Natália Viana, que também é uma das fundadoras da Ponte. Ela fez seu trabalho investigativo e descobriu que, ao contrário do que choramingavam na internet, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro têm uma vida muito boa nos Estados Unidos. Pouco parecida com o cenário de vítimas de uma suposta perseguição política que estavam vendendo como narrativa. 

Dias depois, a tropa de Nikolas Ferreira direcionou ataques à jornalista Juliana Dal Piva em suas redes sociais depois de ela ter divulgado áudios do deputado de extrema direita pedindo favores a Daniel Vorcaro. Algumas das ofensas eram direcionadas ao corpo da colega. Em 2022, Dal Piva também foi alvo de ameaças vindas do então advogado de Jair Bolsonaro após publicar reportagens sobre o esquema das “rachadinhas”. 

Xingar uma jornalista, ameaçá-la ou desqualificar seu trabalho por meio de sua aparência ou sexualidade é o reflexo de uma sociedade sexista que ainda quer se basear na submissão feminina. Nos querem dóceis cordeiros, mas esta é uma posição que não cabe dentro do fazer jornalístico. Afinal, para ser chamada de boa jornalista é preciso fazer as perguntas que incomodam e investigar o que figuras públicas querem manter em sigilo. 

Um método recorrente

Os episódios ocorridos com Natália e Juliana não são casos isolados e vêm se agravando mais e mais desde que a família Bolsonaro colocou suas garrinhas no Poder Executivo. Outra jornalista que passou pela mesma seara foi Patrícia Campos Mello. 

Em 2018, ao publicar denúncias sobre uso de empresas para envios ilegais em massa de propaganda política via WhatsApp, Campos Mello passou também pela via crucis das ameaças e xingamentos de cunho sexual, incluindo por parte de Bolsonaro, o que chegou ao ponto de ter o celular invadido e  a conta de WhatsApp clonada. 

O ódio à mulher fica mais exacerbado quando, além de não ocuparem lugares de bela, recatada e do lar, são quem expõe esquemas criminosos, acordos escusos, violência e tudo o que figuras públicas, sobretudo masculinas, querem manter escondido. Uma mulher que incomoda o patriarcado é sempre vista como perigo e, portanto, precisa ser neutralizada. 

Imagina jornalistas que se especializam em denunciar violência de gênero contra mulheres sem expressão pública? Como destacou a Mari Rosetti, minha colega aqui na Ponte, quando estávamos discutindo sobre esse texto: além de ter que trabalhar em cima de uma temática que pode provocar gatilhos pessoais, ainda há o risco do agressor da fonte ou seus conhecidos se tornarem os agressores da jornalista.

Há, inclusive, um levantamento feito pela própria Mari e pela também jornalista Paola Churchill para a revista AzMina que demonstra mais essa via de agressão. Em um grupo de 13 profissionais voltadas para a cobertura sobre violência de gênero, todas tinham sofrido algum tipo de agressão durante o exercício e mais da metade tinha mais de dois casos para contar. 

Quando se reúne no mesmo corpo as condições de ser mulher e ser jornalista, a gente passa a se “prevenir”, mudar comportamento nas redes sociais, separar redes pessoais das profissionais e pensar em toda sorte de informação que pode dar munição a quem queira nos atacar ou ameaçar. E a questão se agrava se você traz outras interseccionalidades, como ser negra, periférica e/ou LBTQIAP+. 

O grande azar de quem nos quer silenciadas é que, ao nos atacar, acabam por visibilizar mais ainda o que querem esconder, afinal jornalistas se conhecem e existem associações, sindicatos e grupos de Whatsapp pelos quais as informações galopam. 

O outro é que, em geral, quem optou por essa profissão é um tipo muito teimoso de pessoa, e, quando se é mulher, isso só aumenta, afinal somos especialistas em sobreviver em ambientes que nos querem caladas ou mortas. Não que isso não nos afete. Ora, somos carne, meu bem, e, como diria minha vó, a mente da gente é “fina”. Seguimos e seguiremos apesar disso. 

Por fim, às queridas Natália e Juliana, reforço, em nome da Ponte, nosso apoio e solidariedade, para não falar da admiração pelo trabalho corajoso que fazem. Seguimos juntas.

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