Crítica ao Plano de Governo de Flávio Bolsonaro
Por Lucas Andreto - Graduado e mestre em História pela Unesp de Assis. Doutor em Ciências Sociais pela Unesp de Marília. Membro do Comitê Regional de São Paulo do PCB.
Crítica ao Plano de Governo de Flávio Bolsonaro: Projeto da Colônia Brasileira dos Estados Unidos da América
Lucas Andreto
Ler o programa de Flávio Bolsonaro, registrado no Superior Tribunal Eleitoral é como mergulhar numa latrina. O leitor se vê perdido entre uma série de propostas de desnacionalização da economia brasileira, destruição sistemática de direitos sociais e trabalhistas, apoio a golpes de Estado como o que ocorreu na Venezuela, ao genocídio da população palestina e cubana e a guerras de rapina como a Guerra por procuração dos EUA contra a Rússia na Ucrânia e dos EUA contra o Irã. Tudo regado a muito eufemismo e afirmações contraditórias para tentar escamotear dos eleitores seus objetivos abjetos.
Trata-se de um projeto de colônia, que conforme a leitura avança, o leitor se sente como o protagonista do Enterro dos ratos de Bram Stoker, visualizando um projeto de Brasil que se apresenta como “um tanto selvagem e nem um pouco saudável”, de maneira que por onde quer que se olhe “erguem-se grandes pilhas de sujeira e lixo acumulados pelo tempo”. De fato, se trata da gigantesca pilha de detritos históricos que o Brasil acumulou por nunca ter acertado as contas definitivamente com seu passado colonial e escravista, de República oligárquica, de política entreguista, de tratar “a questão social como caso de polícia”, de períodos ditatoriais marcados pela perseguição política, tortura e assassinato. Todo esse lixo, em boa parte jogado para debaixo do tapete durante a Nova República, se ergue de maneira assustadora, sintetizada no projeto do neofascismo, hoje encarnado na candidatura de Flávio Bolsonaro, a farsa do próprio pai.
Todo o documento, intitulado Para o Brasil vencer o atraso, é ele mesmo um atraso imenso, que promete nos colocar o mais estritamente possível no “sentido da colonização”, caracterizado por economia agroexportadora, mercado interno fraco e baixo valor da força de trabalho (remontando a lógica do escravismo). Estaríamos à mercê do exterior, voltados desta vez, não mais para Portugal ou Inglaterra, mas para os Estados Unidos. Se trata de um texto que especula com o medo das classes médias, sobretudo dos pequenos proprietários, de ver os seus estabelecimentos assaltados e suas casas vilipendiadas, o tempo todo se oferece para o capital financeiro prometendo agressiva política de austeridade fiscal, garante ao capital estrangeiro abrir os mercados do Brasil e fazer do país terreno aberto para a exploração desenfreada.
Tentaremos mostrar de maneira sintetizada e crítica o que significa a vitória de Flávio Bolsonaro, coroando a ascensão (talvez definitiva?) do neofascismo ao poder. Adotaremos uma divisão de texto diferente daquela do próprio programa do candidato, mas que procura melhor explicar e deslindar o seu projeto e o gravíssimo perigo que representa.
O que o bolsonarismo pretende para a classe trabalhadora?
O bolsonarismo busca, de todas as maneiras, seduzir o trabalhador com promessas de empregabilidade, casa própria, bons salários, fim das dívidas, prosperidade material de maneira geral. Mas basta começar a apresentar as pretendidas ações concretas para se chegar nesses objetivos que ocorre uma passagem ao inverso, e elas se tornam ameaças de desemprego, instabilidade salarial, insegurança nos contratos de trabalho, progressivo endividamento em razão do decaimento da renda, em suma... a miséria material.
Quando o Plano de Governo de Flávio Bolsonaro olha para o trabalhador para conversar com ele, a voz o ultrapassa para falar diretamente com o seu patrão, afirmando que “o custo de um trabalhador formal chega a cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa” (p. 43), levantando a tese de que um suposto alto valor da força de trabalho é a raiz do desemprego. Passa ao largo da realidade, simplesmente ignorando que a experiência prática de diversos países demonstra que o nível de proteção trabalhista (como salário-mínimo, proteção contra demissão, férias, décimo terceiro, plano de saúde etc) não apresenta correlação direta com a taxa de desemprego. Ao contrário, são justamente os países que levaram a cabo políticas de destruição das leis trabalhistas, como Chile, Colômbia, Argentina e – por que não dizer – o Brasil de Michel Temer e Jair Bolsonaro apresentaram altas taxas de desemprego[2]. Não é preciso mais do que consultar as estatísticas históricas do Brasil para ver que no auge da empregabilidade, o país tinha trabalhadores empregados com carteira assinada, usufruindo de seus direitos, enquanto depois da Reforma Trabalhista de 2017, que Jair e agora Flávio sempre intencionaram aprofundar, os índices de desemprego subiram constantemente até beirar os 14% durante o governo de Jair. A Reforma Trabalhista não diminuiu o desemprego, após ela, não apenas o desemprego aumentou, mas as relações de trabalho pioraram em prejuízo dos trabalhadores.
O desemprego não decorre do “custo trabalhador”, nos dizeres de Flávio Bolsonaro, mas sim na manutenção do Brasil como um país agroexportador, desindustrializado, de economia dependente das grandes potências capitalistas, com políticas de austeridade fiscal que sabotam o desenvolvimento e impedem a abertura de novos concursos públicos, e... com um mercado interno de baixo valor da força de trabalho. Exatamente o receituário do programa de Flávio Bolsonaro para o Brasil. Se assim não fosse, como explicar que países como alta proteção de direitos trabalhistas, como Suécia e Dinamarca tem baixo índice de desemprego? O bolsonarismo retira a explicação do desemprego da divisão internacional do trabalho e a coloca nas costas da classe trabalhadora, com o objetivo perverso de promover a mesma lógica de subdesenvolvimento e subalternidade internacional que possibilitam estruturalmente o alto índice de desemprego e o baixo valor da força de trabalho no Brasil.
A promessa feita por Flávio Bolsonaro de baixar o “custo trabalhador” sem retirar direitos, apesar de estranha, logo se explica pela proposta de uma nova reforma trabalhista em que faça imperar o “negociado sobre o legislado”. Também já ouvimos essa história antes e, aqui no Brasil, sabemos o que ela significou na prática depois da Reforma Trabalhista de 2017: aumento da jornada de trabalho para os trabalhadores, menores salários, parcelamentos de férias sem contrapartida real[3].
Isso ocorre por uma razão: porque na prática o “negociado” é simplesmente a vontade do patrão, pois ele está na imensa maioria dos casos na situação de vantagem de quem pode impor condições, enquanto o trabalhador desempregado, pode aceitar ou continuar amargando o desemprego, sem fonte de sustento para si e sua família. A proposta do imperativo do “negociado sobre o legislado” é um atentado contra o fundamento da hipossuficiência do trabalhador, isto é, a premissa de que o trabalhador é a parte estruturalmente vulnerável na relação de emprego, justificando a proteção estatal. Uma conquista histórica das lutas da classe trabalhadora, que, se perdida, jogará os trabalhadores do Brasil para a situação social da República Velha, um verdadeiro retrocesso histórico para um projeto que declara pretender “vencer o atraso”.
Mas o bolsonarismo não se contenta com uma única medida geral para submeter os trabalhadores aos patrões, ele busca ainda universalizar a pejotização com a desregulamentação para a abertura de pequenas empresas e criar “trabalhadores de segunda categoria”, com menos direitos e contratos ainda mais frágeis, visando principalmente os jovens entre 18 e 24 anos, os idosos e as mulheres. O bolsonarismo quer institucionalizar a velha lógica da burguesia de que jovens, mulheres e idosos são trabalhadores que “valem menos”. Se até hoje a Constituição de 1988 busca a igualdade ao menos formal entre os trabalhadores, tentando impedir desigualdades injustificadas que imperavam no passado, o bolsonarismo não apenas pretende trazê-las de volta, como também lhes dar estatuto legal.
A tentativa do bolsonarismo em reduzir o trabalhador brasileiro a uma figura submetida as vontades do patronato da um salto ainda maior quando declara guerra a “República Sindical”, verdadeira fantasia, entidade absolutamente inexistente, retirada da pilha de lixo histórico pertencente ao episódio de quando a UDN bradava essa bravata para justificar um golpe de Estado contra o Presidente João Goulart – o que mostra como o discurso golpista está sempre à espreita na cosmovisão bolsonarista. O combate à “República Sindical”, pretendido pelo bolsonarismo é, na realidade, a perda do poder de negociação dos sindicatos, que se tornarão entidades sem qualquer poder de barganha ou de defender os seus associados. É, na prática, a negação do direito de associação sindical dos trabalhadores, fragilizando ainda mais a sua situação perante as empresas.
O programa de Flávio Bolsonaro apresenta a unidade sindical como um “monopólio” que impede colocar “o trabalhador em primeiro lugar”, mas ignora que liberdade sindical exigiria a liberdade de associação aos sindicatos, o amplo direito de greve e de negociação coletiva.
A declaração da carta de propostas de Flávio Bolsonaro de que o poder de negociação dos sindicatos é “insegurança jurídica e retrocesso” é outro golpe de retórica vazia, e mostra como a sua segurança jurídica é a segurança dos patrões, pois seu plano de governo pretende jogar os trabalhadores em completa situação de inseguridade, desprovidos de uma legislação trabalhista válida e de sindicatos pelos quais possam se organizar coletivamente como classe, os trabalhadores ficarão desarmados para defender seus próprios interesses perante as empresas, restando-lhes se submeter as piores condições de trabalho.
A proposta de Flávio Bolsonaro é, portanto, uma proposta de ampliar o poder discricionário do capital sobre a força de trabalho, ou seja, dos capitalistas sobre a classe trabalhadora. Ela jogará os trabalhadores em situação de extrema vulnerabilidade, reduzirá seu poder aquisitivo, o deixará a mercê da incerteza do dia seguinte e completamente desarmado política e socialmente. Se trata de uma política brutal, de quem mal consegue esconder sua ânsia de servir de polícia política e capataz da burguesia por debaixo de uma retórica rasa e mal elaborada.
A devastação do meio ambiente
O meio ambiente no programa de governo de Flávio Bolsonaro é pensado como fonte de capitalização, pura transformação da natureza em ativo financeiro. Consta no programa de Flávio a eliminação de “superposições” entre IBAMA, FUNAI e ICMbio (p. 59), indicando novos cortes e desmonte de setores das instituições de fiscalização ambiental, assim como ocorreu no governo de seu pai. O plano de governo de Flávio Bolsonaro promete que se o “órgão não analisar a licença no prazo, ela sai automaticamente”, permitindo que grandes obras poderão ser liberadas sem qualquer avaliação sobre o impacto ambiental, deixando caminho aberto para os maiores desastres ambientais possíveis.
Quem teria esquecido os cortes orçamentários, as demissões discricionárias de funcionários e a redução da capacidade de fiscalização ocorrida no IBAMA e ICMbio durante o governo de Jair? O Ministério do Meio Ambiente passou por esvaziamento institucional e perda de capacidade operacional sem precedentes. O resultado do governo Jair Bolsonaro para o meio ambiente foi um aumento de 60% do desmatamento da Amazônia em comparação com o período presidencial anterior, queda de 40% nas multas por desmatamento da Amazônia, aumento de 242% de invasão de Terras Indígenas, crescimento de 125% da atividade de garimpo em Terras Indígenas e a ausência de demarcação de suas terras durante o mandato[4]. Foi uma política planejada de destruição ambiental a favor da ganância irrefreável dos setores criminosos da especulação fundiária e da burguesia pecuarista.
Mas o programa de Flávio Bolsonaro consegue ser um perigo iminente não apenas para o meio ambiente, mas também para a soberania e segurança nacional. A alma do programa é o “entreguismo” e, assim sendo, pretende vender para as empresas estrangeiras tudo o que se puder, com a menor fiscalização e controle possível e, certamente, será “a preço de banana”.
Enquanto as grandes potências mundiais brigam e entram em guerra (comercial ou militar) pela propriedade dos minérios estratégicos e buscam desenvolver sua indústria usando-os como matéria-prima, sabendo ser eles a chave o desenvolvimento das nações no século XXI, o programa de Flávio Bolsonaro propõe “transformar o Brasil em fornecedor global de minerais críticos” (p. 57), citando expressamente o nióbio, lítio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras-raras, que como o próprio programa diz, são “insumos essenciais para semicondutores, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos, defesa e inteligência artificial” (p. 55). Não é demais lembrar que, em março de 2026, Flávio Bolsonaro declarou no evento americano de conservadores do CPAC que “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”[5], evidenciando que já tem como certo para quem irá vender as terras raras brasileiras na bacia das almas.
Flávio até tenta se parecer um nacionalista de fato, e não de boato, tal como é, ao dizer que vai transformar os minérios dentro do país, e não apenas exportá-lo bruto para o exterior, mas logo seu nacionalismo mostra ao que veio, quando declara “Vamos trabalhar para atrair o capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo, aplicando aqui o que outros países já dominam e transferindo esse conhecimento ao Brasil” (p. 55). Em outras palavras, a transformação e a tecnologia até podem ser aplicadas aqui, mas a propriedade e a posse serão de empresas estrangeiras e certamente a remessa de lucros enviada para estrangeiro - de riquezas que deveriam servir para custear o desenvolvimento do próprio Brasil - não será pouca.
Todo o entreguismo de matérias-primas será feito com “aceleração de licenciamento” e “garantias de crédito”, priorizando o investimento estrangeiro. Ou seja, a exploração dos recursos naturais será feita pelas empresas estrangeiras em contexto de enfraquecimento da fiscalização e regulação, permitindo não apenas o saque das riquezas naturais, mas também colocando sério perigo a preservação das áreas sensíveis.
Nesse ponto, mais uma vez o mantra da “segurança jurídica” é invocado, dessa vez para fazer apologia ao “irreversível direito de propriedade” para os proprietários de terras e, como se não bastasse, Flávio Bolsonaro intenciona colocar o agronegócio como maior responsável por preservar o meio ambiente. Algo como colocar a raposa para cuidar do galinheiro.
A “segurança jurídica” do direito “irreversível de propriedade”, evidentemente, no contexto dos conflitos ambientais e agrários, também significa usar o poder do Estado em favor do latifúndio e das grandes empresas do agronegócio contra o movimento sem-terra, indígenas e provavelmente como forma de proteger violações ao Código Florestal.
Seguindo essa lógica, o plano de governo bolsonarista promete hipocritamente zerar o desmatamento, mas fecha os olhos para o problema da expansão da fronteira agrícola, não questiona a concentração fundiária, não toca na lógica do lucro que torna o desmatamento economicamente racional. Ao contrário, a sua “defesa irrestrita da propriedade”, nos deixa ver que uma vez dominado o território desmatado, o Estado irá garantir que ele permaneça com o proprietário ilegal. A síntese, é que após prometer o fim do desmatamento, ele apresenta como meio para tanto justamente a apologia da estrutura econômica e social de capitalização do meio ambiente que impulsiona o desmatamento.
Na prática, a “segurança jurídica irreversível” do direito de propriedade pregada por Flávio Bolsonaro significa anistia para quem já desmatou e blindagem para quem pretende desmatar. A garantia de que o Estado fará seu papel como “balcão de negócios da burguesia”, mas com a particularidade de que, no governo Bolsonaro, quem comandará esse balcão serão os setores mais banditistas, corrompidos e venais da classe capitalista, cabendo ao Estado garantir a eles que o crime compensa.
Em resumo, é um programa de governo que mercantiliza a natureza, a entrega para o saque desenfreado do capital estrangeiro, usa de eufemismos e retórica evasiva para esconder que vai defender e dar suporte para a burguesia agroexportadora desmatar florestas, subjugar populações indígenas, movimentos sem-terra, populações ribeirinhas e ainda promete uma dura militarização da questão ambiental.
A Questão da Dívida Pública
Flávio Bolsonaro faz da dívida pública e seu contínuo aumento nos últimos anos o cavalo de batalha de seu programa, afirmando que “mesmo arrecadando como nunca, o governo atual gasta ainda mais, e a dívida pública, que havíamos reduzido entre 2019 e 2022, voltou a crescer de forma acelerada, um salto de cerca de 13 pontos do PIB em apenas quatro anos” (p. 8) e se vangloria pelo governo de seu pai ter reduzido em quatro pontos percentuais a relação entre dívida e PIB. O candidato relaciona o aumento da dívida pública com excesso de gastos do Estado e com o aumento do custo de vida da população. O cavalo de batalha de Flávio, porém, é um Cavalo de Tróia e exige uma memória muito curta e uma incompreensão grande de economia para que seja tomado como verdade.
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Flávio está equivocado sobre as razões para a queda da relação dívida/PIB no governo de seu pai, que não conseguiu tal coisa por competência. A queda do valor da dívida no governo Bolsonaro se deu principalmente pelo crescimento do PIB nominal, impulsionado tanto pela recuperação econômica proveniente do fim da pandemia da COVID-19 quanto pela inflação elevada. Nem de longe a razão foi a “disciplina fiscal” – a não ser que vejamos nela a raiz da inflação. A inflação de 2021-2022 elevou o PIB nominal, reduzindo mecanicamente a relação dívida/PIB. O valor absoluto da dívida, na verdade, subiu de R$ 5 trilhões (2019) para 7,2 trilhões (2022). O Banco Central do Brasil confirmou que somente o crescimento nominal do PIB em 2022 reduziu a relação dívida/PIB em 7,0 pontos percentuais, enquanto a Instituição Fiscal Independente (IFI) e o Bradesco apontaram que essa melhoria foi “principalmente impulsionada pelo crescimento nominal do PIB”, não por “avanços nas regras fiscais ou esforço fiscal”. A dívida absoluta na verdade cresceu de R$ 6 trilhões para R$ 7, 2 trilhões durante o mesmo período[6]. O Banco Central declarou explicitamente: "No acumulado do ano, a queda de 3,5 pontos percentuais (pp) reflete o impacto do crescimento nominal do PIB (-7,0 pp), amortização líquida de dívida (-2,5 pp), efeito de valorização cambial (-0,3 pp) e juros nominais (+6,3 pp)."[7]
É irônico que na raiz daquilo que Flávio apresenta como mérito esteja justamente o mal que pretende combater: a inflação alta. A inflação reduz a relação dívida/PIB porque o denominador (PIB nominal) se expande, não porque o governo tenha realmente pagado a dívida. Até porque a dívida não é paga pelo governo, ela é refinanciada, o governo “rola a dívida” emitindo novos títulos para pagar os antigos. O que ele paga são os juros, e esses juros são a renda do capital financeiro. Além disso, a relação dívida/PIB brasileira em 2022 (71,7%) ainda é inferior ao nível de 2019 (74,4%)[8].
Mas não só está equivocado sobre os méritos do governo de Jair quanto à dívida pública. Flávio Bolsonaro prepara uma verdadeira armadilha contra a população brasileira ao apontar, na razão do endividamento do Estado brasileiro, o “gasto social excessivo”.
Para o bolsonarismo, o povo custa muito caro – como já havia declarado ao falar sobre as relações de trabalho – e gastar com o povo só pode gerar prejuízo. Porém, a verdadeira causa principal do aumento da dívida pública não é o “gasto social excessivo”, mas sim a taxa Selic, que há muito tempo permanece nos dois dígitos. Lula, que assumiu o governo com a Selic no maior nível desde 2017 (13,75%) pelo menos teve o mérito de tentar enfrentar os juros altos, defendidos denodadamente pelo Presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro, Roberto Campos, mas fracassou. O Presidente do Banco Central indicado por Lula também não resolveu o problema, sobretudo porque isso exige enfrentar os interesses do capital financeiro.
Mas, se Lula ao menos tentou e buscou criticar o alto valor da Selic, Flávio sequer toca no assunto e, em vez disso, joga o custo e a culpa do aumento da dívida pública nas costas do povo brasileiro, apontando como solução os cortes de gastos nos setores da educação, saúde, previdência social, uma reforma administrativa que certamente vai afetar o funcionalismo público e gerar desemprego, bem como corte de ministérios que julga sem importância (talvez, como o Ministério do Trabalho e o Ministério do Meio Ambiente, seguindo os passos do pai).
Entretanto, cortar os gastos com políticas sociais não vai resolver o problema da dívida pública, pois essa dívida não é do povo, mas sim dos grandes banqueiros. Um terço da dívida (32,21%) está diretamente nas mãos de instituições financeiras. Se somarmos fundos de pensão e fundos de investimento — que também pertencem ao grande capital —, quase 80% da dívida está nas mãos do capital financeiro, de modo que o orçamento do Estado é devorado pelo pagamento de juros.
Em 2025, o governo federal destinou 41,4% do orçamento ao pagamento de juros e amortizações da dívida e apenas 20,48% para a Previdência Social, 4,28% para saúde pública e 3,56% para a educação (Tesouro Nacional, LOA 2025). Mas é justamente desses últimos setores, que determinam diretamente a vida da população, que Flávio Bolsonaro espera tirar o seu sucesso contra o endividamento do Estado, cortando seus custos no orçamento.
O Brasil paga mais juros que a média mundial. Enquanto a média dos países emergentes paga cerca de 3-4% do PIB em juros, o Brasil pagou 7,9% do PIB em 2025. Mas tomar medidas para diminuir a taxa Selic não comparece na proposta de governo de Flávio Bolsonaro. Não fala em auditar dívida, renegociar juros, taxar os títulos públicos ou regular fortemente os mecanismos do capital financeiro. Isso não ocorre porque o programa está a serviço do capital financeiro e de modo algum irá enfrentar o interesse dos grandes bancos e capitalistas.
A “disciplina fiscal” de Flávio Bolsonaro pressupõe a continuidade do pagamento de juros altos, transferindo mais de 40% do orçamento do Estado brasileiro para os credores. Em mais um assunto, o programa de Flávio Bolsonaro se mostra um programa para os grandes capitalistas. Ele ele espera que o povo trabalhador, caindo na lorota do corte de gastos para diminuir a dívida pública, se veja em um futuro muito restrito de acesso à educação, saúde, previdência social e outros serviços públicos.
A Desnacionalização do Estado
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a “soberania” como um dos fundamentos da República. Na nossa Carta Magna, a “soberania nacional” é entendida como o poder supremo do Estado brasileiro se autodeterminar, criar suas próprias leis, organizar suas instituições e conduzir seus assuntos internos e externos sem subordinação a outro Estado. Isto é reforçado no artigo 4 º, que estabelece que o Brasil rege suas relações internacionais pelo princípio da independência nacional. O espírito da lei, como é defendido na doutrina jurídica, reconhece que a “soberania” é dividida em seu aspecto interno e externo, de modo que o primeiro se refere ao poder supremo do Estado sobre as pessoas e instituições em seu território; enquanto o segundo, trata da independência do Estado perante outros Estados e organizações internacionais.
Flávio Bolsonaro, em seu Plano de Governo, oferece uma definição alternativa e mutilada de soberania nacional: “Soberania é a capacidade de uma nação governar a si própria, fazer suas leis e cuidar do seu território” (p. 61), sintomaticamente cortando a parte fundamental que diz respeito fazer isso sem a subordinação à um Estado estrangeiro. Excluindo por completo o aspecto externo do conceito de soberania, Flávio coloca uma espécie de hiperfoco no aspecto interno, dizendo que “De nada adianta um país erguer a voz contra inimigos distantes se não protege o próprio cidadão na esquina de casa, do assaltante, do traficante, do medo que tira a liberdade de andar na rua” (p. 61). Desloca, portanto, a substância da soberania nacional da independência frente a Estados estrangeiros para o controle do território interno contra “organizações criminosas”. Flávio executa a manobra de preparar o terreno para justificar a subordinação aos EUA como se fosse “soberania”.
Não o faz por acaso, pois o que ele está operando neste trecho que abre suas propostas para soberania brasileira é precisamente se subordinar a um Estado estrangeiro. Logo no primeiro dia do novo governo de Donald Trump, 20 de janeiro de 2025, o então empossado Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) assinou a Ordem Executiva que abriu caminho para classificar cartéis de drogas latino-americanos como “organizações terroristas estrangeiras” (FTOs). A justificativa oficial foi que esses grupos “constituem uma ameaça à segurança nacional além daquela representada pelo crime organizado tradicional” e oficializou a designação de oito organizações criminosas latino-americanas como organizações terroristas estrangeiras[9].
Em agosto de 2025, o The New York Times e o The Wall Street Journal revelaram que Trump havia ordenado ao Pentágono que preparasse opções para usar força militar contra os cartéis designados como terroristas. As opções discutidas incluíam o uso de forças especiais e apoio de inteligência, com coordenação de parceiros estrangeiros[10]. A partir de setembro de 2025, os EUA iniciaram uma campanha de ataques aéreos contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental. A justificativa oficial era que os ocupantes dessas embarcações eram “narco-terroristas” em “conflito armado” com os Estados Unidos[11].
Em 3 de janeiro de 2026, uma operação militar dos EUA sequestra o Presidente da República da Venezuela, Nicolás Maduro, juntamente com sua esposa, a Primeira Dama Cilia Flores, sob a justificativa de que Maduro comandava uma organização criminosa chamada Cartel de los Soles. Apesar de o governo Trump ter sustentado essa acusação durante quase todo o ano de 2025, ela foi retirada formalmente pelo Departamento de Justiça dos EUA pouco depois do sequestro do Presidente Maduro e, em pouco tempo, até mesmo Donald Trump recuou em seu discurso, passando a acusá-lo, abstratamente, de “participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção de enriquecimento a partir do tráfico de drogas”[12].
Em março de 2026, Trump criou o “Escudo das Américas” (Shield of the Americas), uma aliança militar regional que, segundo o Secretário de Defesa Pete Hegseth, visa “retomar o controle do nosso hemisfério” [13], uma referência explícita à Doutrina Monroe. O Secretário de Estado Marco Rubio declarou que o combate aos cartéis “não é mais uma questão de aplicação da lei. Torna-se uma questão de segurança nacional”[14]. A aliança já conta com 19 países membros.
Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro visitou a Casa Branca para conversar com Donald Trump e, nessa ocasião, o presidenciável declarou que, se eleito, integrará o Brasil ao “Escudo das Américas” e pediu a Trump para classificar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas[15]. Coerente com o pedido feito ao Presidente dos Estados Unidos, o Plano de Governo de Flávio Bolsonaro, ao deslocar o conceito de soberania nacional da independência frente a Estados estrangeiros para simplesmente o controle do território interno contra organizações criminosas, está reproduzindo a tática do governo Donald Trump e aderindo ao plano de interferência internacional dos EUA na política e no território dos países da América Latina, o que inclui o uso de força militar no interior desses países para operações de ocupação territorial. Está se subordinando, portanto, a um Estado estrangeiro e, escandalosamente, apresentando como proposta de governo para a Presidência da República Federativa do Brasil se submeter à política internacional dos EUA.
É ainda mais escandaloso que, após deixar clara a sua submissão a serviço de um Estado estrangeiro, o Plano de Governo de Flávio Bolsonaro afirme que sua proposta é “uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia”. É “profissionalismo” e “pragmatismo” aderir à nova Doutrina Monroe e ao “Escudo das Américas” de Donald Trump? É como se o programa de governo estivesse anunciando o exato inverso do que diz. A sua verdade exige inverter a frase para “uma diplomacia guiada pela ideologia, não pelo profissionalismo e pragmatismo”. O plano de Flávio diz o contrário do que faz. Ele fala em “soberania” enquanto entrega o país; prega o “profissionalismo” enquanto se subordina ideologicamente aos EUA.
Esse processo sistemático de inversão das próprias afirmações ao descrevê-las prossegue evidente quando o Plano de Governo anuncia que “defender a soberania” é “abrir mercados” e “atrair investimentos”. Como já demonstrado na parte sobre a questão ambiental, o objetivo do bolsonarismo é vender as matérias-primas estratégicas do Brasil para a exploração das empresas estrangeiras, exportando-as na forma bruta e, em outros casos, trazendo as empresas dos outros países para transformá-las em manufatura dentro do Brasil. Em todo caso, se trata da alienação das riquezas naturais brasileiras.
Mas não são só as riquezas naturais que Flávio Bolsonaro pretende vender para o estrangeiro. Também as empresas estatais serão objeto de grande leilão para o capital internacional com a retomada do “Programa Nacional de Desestatização”, iniciado por Fernando Collor de Mello e que teve grande prosseguimento no governo de Jair Bolsonaro. Sob a direção de Paulo Guedes, foram vendidas várias subsidiárias da Petrobrás, como a BR Distribuidora, a Refinaria Landulpho Alves e a Liquigás. A venda mais famosa, completa e preocupante foi a Eletrobrás[16]. Sobraram ainda no Plano de Desestatização, após o fim do governo Bolsonaro, os Correios, a Telebras, Serpro, Dataprev, Ceitec, Emgea, ABGF, Codesp. A maioria das privatizações se deu de maneira silenciosa, contornando o Congresso, visto que a venda de subsidiárias e participações acionárias não depende de aprovação congressual. Paulo Guedes, tal como um serial killer, foi por partes, desmembrando as estatais brasileiras, para vendê-las ao capital estrangeiro[17].
As consequências da venda da Eletrobras foram das mais graves. A lei de privatização (Lei 14.182/2021) estabeleceu um processo de “descotização”, que reduz gradualmente a obrigação de vender energia a preços abaixo do mercado, até zerar em 2027[18]. Isso significa que a energia das hidrelétricas da Eletrobras, antes vendida a preços controlados, passou a ser comercializada a preços de mercado, que são muito mais altos. A privatização resultou em um desmonte do corpo técnico da empresa. A economista Clarice Ferraz, da UFRJ, afirma que “mais de cinco mil empregados concursados foram demitidos”[19]. Essas demissões ocorreram por meio de Planos de Demissão Voluntária (PDVs) e Planos de Demissão Consensual (PDCs), que, segundo entidades sindicais, foram marcados por pressão e ameaças. Trabalhadores foram submetidos a “transferências forçadas, extinção repentina de setores e metas consideradas inalcançáveis”[20], além de práticas discriminatórias contra empregados mais experientes. A Lei de Privatização também proibiu a representação dos trabalhadores no conselho de administração e impôs um limite de 10% ao poder de voto de qualquer acionista, o que, na prática, retirou do Estado (que detém 43% das ações) o poder de influenciar as decisões da empresa. A privatização da Eletrobras foi um crime contra a nação, com consequências que incluem não apenas as demissões, mas também o risco à vida dos trabalhadores que permaneceram.
Esse tipo de crime, Flávio Bolsonaro quer universalizar, expandindo-o para áreas da economia estatal e administração pública que sequer estão mencionadas em seu Plano de Governo, mas que é de se deduzir que sejam aquelas deixadas em espera ao término do governo de seu pai. A Petrobrás, por lidar com matéria prima estratégica muito cobiçada pelas potências econômicas, principalmente os EUA, é sempre o alvo preferido dos entreguistas, de modo que Flávio promete dar prosseguimento a abertura de capitais da estatal brasileira para o capital privado (p. 52 – 53).
O processo de privatização planejado por Flávio Bolsonaro, sob justificativa de “combater a corrupção”, é ele mesmo um processo corrupto, de alienação dos setores econômicos nacionais ao capital estrangeiro, geralmente vendidos a preço baixo, se servindo de manobras espúrias como a “retaliação” das estatais para a venda – como fez Paulo Guedes – e que prejudica a população com o encarecimento de serviços, demissões em massa e precarização das relações de trabalho. É um processo que aumenta a dependência econômica do Brasil frente aos países capitalistas mais desenvolvidos e onde não há independência econômica, não pode haver independência política.
A Política Externa de Submissão Passiva
O Plano de Governo de Flávio Bolsonaro fala muito pouco sobre política externa. Talvez, como em quase todos os outros temas, a lógica seja não falar muito para não se comprometer. Mas pelo pouco que fala, é possível identificar suas diretrizes gerais. A crítica ao governo Lula por ter recebido no Brasil Nicolás Maduro – taxado no documento como “narcoterrorista” –, por ter permitido que navios de guerra iranianos atracassem no Brasil e à viagem de Geraldo Alckmin ao Irã, deixa evidente como o programa de Flávio Bolsonaro aderiu à política externa de Donald Trump e pretende fazer da subordinação a ela a sua própria política externa. Isso significa que Flávio adere às “guerras eternas” que travam os EUA, com política de agressão a países como a Venezuela, Cuba e o Irã. Indo além, o programa bolsonarista também critica o governo Lula por ter se afastado de Israel, mostrando que pretende dar suporte ao sionismo e ao extermínio da população palestina.
Não é de se espantar. Essas são as linhas gerais que foram aplicadas no governo de Jair Bolsonaro, que retirou a embaixada brasileira de Tel Aviv e a colocou em Jerusalém, manteve constante relação de tensão com a Venezuela, pregando a necessidade de “mudança de regime” no país, mesmo por meio da intervenção de força estrangeira. Jair Bolsonaro recebeu o hoje pouco lembrado e menos ainda relevante golpista venezuelano, Juan Guaidó, com pompas de chefe de Estado no Palácio do Planalto e votou pelo embargo econômico à Cuba em 2019, na Assembleia Geral da ONU. O governo de Jair sempre se guiou por um alinhamento automático com os EUA, principalmente durante o governo de Donald Trump, mesmo que isso não trouxesse qualquer compensação para o Brasil e apenas vantagens para os EUA.
É preciso lembrar que a designação de Maduro como “narcoterrorista” não é um fato, mas uma construção política dos Estados Unidos. A própria justiça americana já desmontou essa narrativa: em janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos EUA modificou a acusação contra Maduro e retirou a alegação central de que ele liderava o “Cartel de los Soles”, admitindo, na prática, que a organização nunca existiu como estrutura criminosa real. Flávio, no entanto, adota a narrativa americana mesmo depois de ela ter sido judicialmente desmontada — o que revela que seu objetivo não é combater o narcotráfico, mas se alinhar geopoliticamente aos EUA.
O objetivo de “retomar o cronograma interrompido de adesão à OCDE” (p. 63), apesar de todo o conhecido prejuízo aos interesses nacionais do Brasil que isso implica é outra evidência no sentido do plano de submissão do Brasil ao EUA e seus interesses imperialistas. O apoio dos Estados Unidos ao ingresso brasileiro está condicionado ao abandono do tratamento especial e diferenciado na Organização Mundial do Comércio (OMC), abrindo mão de algumas vantagens importantes, como custos mais baixos no crédito internacional, prazos mais longos em disputas comerciais e flexibilidade em acordos de livre-comércio.
Apesar de o programa de Flávio Bolsonaro dizer que o Brasil deverá continuar negociando com a China, é muito provável o afastamento do Brasil tanto da China quanto dos BRICS. Basta lembrar que o governo de Jair Bolsonaro foi marcado por um misto de xenofobia e anticomunismo em relação à China, acusando-a de ter criado o Corona Vírus em laboratório como arma biológica, indagando a qualidade da vacina CoronaVac e impedindo sua importação, criando barreiras para que a tecnologia 5G – desenvolvida pela Huawei – chegasse ao Brasil. Ernesto Araújo via a China como “antípoda” do “Ocidente”, em crise de identidade e liderado pelos EUA. Como país oriental e comunista, a China era tomada por Araújo como o exato oposto do que o Brasil deveria ser, isto é, um país conformado a própria posição de “ocidente subalterno”. O BRICS, por sua vez, era uma espécie de “aliança errada” na opinião do Ministro das Relações Exteriores de Jair Bolsonaro. Na prática, a relação do Brasil com a China e o BRICS só não foi tão prejudicada em razão do alto nível de relações comerciais, investimentos e parcerias tecnológicas envolvidas, de maneira que um brusco afastamento da China poderia gerar sérios prejuízos para setores inteiros da economia brasileira, principalmente o agronegócio.
Entre 2019 e 2022 o Brasil atuou como verdadeiro sabotador de questões de extrema importância no interior dos BRICS. Durante a Cúpula de 2019, o Brasil impediu que o grupo de emitir apoio à agência de refugiados palestinos (UNRWA), assim como a crítica a qualquer tipo de unilateralismo, à reforma da OMC e não permitiu qualquer menção ao status de Jerusalém. Devido ao seu alinhamento servil aos EUA, o Brasil de Bolsonaro foi agente do sionismo e impediu que o BRICS se apresentasse de modo consensual sobre uma série de questões internacionais importantes que era, até então, consenso entre os países membros. Dessa maneira, colaborou para enfraquecer o BRICS geopoliticamente, como um polo de oposição ao imperialismo estadunidense, buscando reduzi-lo a um fórum de relações econômicas e financeiras.
Apenas para que se saiba a importância dos BRICS, o ponto principal para se salientar é o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), também chamado informalmente de “Banco dos BRICS”, criado em 2014 e que se caracteriza por financiar projetos de infraestrutura nos países membros com ênfase em benefícios mútuos e sem condicionantes de política de governança, econômica ou de reforma institucional. Essa proposta se destaca justamente por se contrapor à lógica de financiamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou do Banco Mundial, que costumam cobrar dos países políticas de austeridade fiscal, disciplina com dívida pública e outras condições que afetam diretamente na capacidade dos governos investirem internamente em benefícios sociais como saúde, educação e segurança. Além disso, o NBD tem incentivado as transações em moedas locais dos países dos BRICS, enfraquecendo o poder do dólar americano enquanto moeda internacional. Se existe no mundo de hoje uma alternativa pragmática para tentar contornar a política internacional do neoliberalismo, essa alternativa é o Novo Banco de Desenvolvimento e, por isso, os EUA se preocupam tanto em enfraquecer os BRICS.
A proposta de relações internacionais de Flávio Bolsonaro, pelo pouco que diz, complementado pelo histórico do governo de seu pai, mostra que é a proposta de transformar o Brasil em uma espécie de protetorado estadunidense para a defesa dos interesses geopolíticos dos EUA na América do Sul e no conjunto dos países em desenvolvimento, atrasando ou mesmo bloqueando projetos alternativos como o BRICS. No atual contexto, em que Donald Trump leva a cabo uma agressiva política de guerra contra outros países, o Brasil deverá servir também como “base militar”, a partir do qual as forças armadas e de inteligência dos EUA podem se servir livremente para operações contra os seus inimigos geopolíticos, certamente com a justificativa de combate ao narcotráfico e organizações terroristas. Não é demais lembrar do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) de Alcântara, assinado no governo Jair, que dá aos EUA acesso à base de lançamento brasileira; dos exercícios militares conjuntos na Amazônia; e da presença de tropas americanas em território brasileiro. O Brasil de Flávio será uma base avançada do imperialismo americano na América do Sul.
A criação de um Estado Policial
Mostramos nos itens acima como o Plano de Governo de Flávio Bolsonaro é uma derivação subsidiária da política externa estadunidense, com a sua retórica de combate ao narcotráfico e narcoterrorismo para intervir em outros países. Coerente com tal diretriz, Flávio Bolsonaro pretende reestruturar o Estado brasileiro para uma espécie de Estado Policial com agressiva política de repressão. Assim, figuram propostas como declarar as facções criminosas como “narcoterroristas” e “abater”, sem titubear, “bandido armado com fuzil na mão” ou ainda, que “quem não entrar na linha vai ser desligado da sociedade”.
Para todas as áreas do setor público, Flávio Bolsonaro promete austeridade fiscal, corte de orçamento, corte de cargos, corte de benefícios, corte de setores inteiros, corte e mais cortes que em conjunto formam o seu “Tesouraço na Burocracia”, uma ameaça de destruição da administração pública e do funcionalismo público, reduzindo-o ao mínimo do mínimo, sem qualquer avaliação do quanto isso poderá afetar na qualidade ou eficiência dos serviços prestados pelo Estado. Nas palavras do próprio Plano de Governo, “Nossa bandeira é um grande TESOURAÇO: um corte profundo e por todos os lados, que enxuga a máquina, coloca as contas em ordem e reduz os impostos que pesam sobre quem produz” (p. 68). A relação direta entre enxugar a máquina pública e reduzir impostos não tem qualquer demonstração prática e não passa de golpe de retórica. Também não se define com precisão o que será “cortado”. Mas tem uma área do Estado que não será diminuída por Flávio Bolsonaro, pelo contrário, será aumentada ao nível de um Leviatã: a polícia e todo o aparato repressivo.
Flávio Bolsonaro promete investir em armamento de última geração e “valorização do policial”, formar uma “tropa de elite” do Exército para guardar as fronteiras, o chamado Sistema Nacional da Fronteira, que será equipada com armas de guerra. Além disso, promete ainda criar um complexo de presídios chamado TREVA, que somará aos presídios já existentes mais cinco novos presídios de segurança máxima. Os presos desse complexo viverão sob o mais completo isolamento e só poderão receber visitas monitoradas. Também o sistema carcerário comum deverá ser abastecido com 500 mil novas vagas, mostrando que, para Flavio, o Brasil ficar em terceiro lugar com a maior população carcerária do mundo não é o suficiente. A segurança pública federal recebe a promessa de ter o orçamento dobrado e o Plano de Governo ainda prevê um sistema de vigilância verdadeiramente orweliano, o nome do nosso “Big Brother” será “Muralha Brasileira”, que será um “sistema nacional de reconhecimento facial” integrando os sistemas policiais da União, estados e municípios, e contará com mais de um milhão de novas câmeras espalhadas por todo o país (p. 15).
É nítido que o próximo governo bolsonarista pretende prender muita gente e gastar uma bela quantidade do orçamento público com isso. A pergunta que se faz é: será que todo esse aparato repressivo estará mesmo voltado contra o crime organizado?
Se a referência maior do bolsonarismo é o governo de Donald Trump, temos motivos para acreditar que o crime organizado não será o único alvo e, talvez, sequer seja o principal. A administração Trump tem sistematicamente usado as leis contra o tráfico de drogas e contra o terrorismo para perseguir oponentes políticos nos EUA. O caso mais notório é a ordem executiva assinada por Trump que classificou o movimento “Antifa” como “organização terrorista doméstica”, instruindo agências federais a “investigar, desmantelar e desmantelar” as “atividades ilegais” do movimento e de seus apoiadores[21]. Ora, “Antifa” não é uma organização, mas sim a abreviatura do movimento antifascista, que não é estruturado e apenas diz respeito à unidade das mais diversas organizações da esquerda contra as organizações e movimentos fascistas (ou de extrema direita, para ser mais genérico). Conjuntamente, o governo Trump tem acelerado a deportação de trabalhadores imigrantes com base em leis de guerra[22], as forças da polícia federal estadunidense têm invadido a casa de congressistas democratas e a Guarda Nacional tem sido enviada para ocupar cidades de prefeitura governada por políticos democratas.
O governo Trump designou cartéis latino-americanos como “organizações terroristas estrangeiras” e, com base nisso, declarou que os EUA estão em “conflito armado não internacional” com esses grupos. O uso doméstico desse arcabouço jurídico também merece atenção. Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798, uma lei usada apenas em tempos de guerra, para acelerar a deportação de imigrantes, alegando que a gangue venezuelana “Trem de Aragua” está promovendo uma “invasão” contra os Estados Unidos[23].
Na madrugada de 12 de outubro de 2026, agentes federais invadiram a residência da congressista democrata de Minnesota, Ilhan Omar, em Washington, a apenas três semanas das eleições de meio de mandato. Omar é uma crítica de longa data de Trump. A política do Departamento de Justiça sempre proibiu a adoção de medidas investigativas contra candidatos políticos cerca de 60 dias antes das eleições; esta invasão violou claramente essa convenção[24]. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem denunciado à imprensa estadunidense que o governo Trump o está perseguindo por meio do Departamento de Justiça, que busca investigá-lo não porque há um crime que ele tenha cometido, mas sim porque pretendem encontrar qualquer motivo para incriminá-lo de qualquer coisa. Newsom foi anteriormente um forte opositor do envio da Guarda Nacional por Trump para Los Angeles[25].
Javier Milei, Presidente da Argentina, e outra das figuras de referência para Flávio Bolsonaro, não levou a cabo perseguição tão sistemática aos seus oponentes políticos como Donald Trump, mas em outubro de 2025, assinou um decreto criando o Centro Nacional de Antiterrorismo (CNA), subordinado à Secretaria de Inteligência de Estado (SIDE). O órgão foi autorizado a “adotar meios especiais de investigação, monitorando pessoas e fundos relacionados ao terrorismo”, e tem o poder de solicitar informações a instituições públicas e privadas.
Sua composição inclui a Secretaria de Inteligência de Estado, o Ministério da Defesa, o Ministério da Segurança, o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Justiça, a Unidade de Informação Financeira, a Administração Federal de Receitas Públicas, a Diretoria Nacional de Inteligência Criminal, a Diretoria Nacional de Inteligência Estratégica Militar, a Diretoria Nacional de Migrações, entre outros[26]. Essa integração interministerial significa uma máquina de inteligência e vigilância altamente centralizada. Isso tudo indica uma escalada no potencial de vigilância e repressão que pode se espalhar para os países da América do Sul e se tornar particularmente grave e preocupante no caso de uma piora no cenário internacional de guerras. Se, eventualmente, os conflitos envolvendo a Ucrânia e a Rússia ou o Irã e os EUA envolverem a Europa, é de se pensar qual finalidade o governo dos EUA dará para esses governos “aliados” na América do Sul e o que eles farão com seus regimes políticos e populações locais se servindo de tão poderoso sistema de segurança.
Entretanto, a proposta de governo de Flávio Bolsonaro não é só um perigo para a democracia, envolta em contexto de militarização dos países da América do Sul para servir de reserva de matérias-primas e recursos humanos (leia-se, bucha de canhão) em uma possível futura guerra imperialista dos EUA contra a China, Rússia e Irã. Ele também é, do ponto de vista pragmático de uma política de segurança, absolutamente desastroso e, como em todo o resto, tende a piorar os problemas que pretende resolver. Naquilo que repete as ações do governo Jair Bolsonaro, é uma já conhecida receita para o fracasso. A flexibilização do acesso a armas durante 2019-2022 armou o crime organizado, estagnou a queda da violência que vinha desde 2017, e resultou em mais de 6.400 mortes por intervenção policial por ano - cerca de 17 pessoas mortas por dia[27].
O TCU comprovou que a política de flexibilização de armas de Bolsonaro permitiu que milhares de condenados pela Justiça obtivessem registro de arma. Entre os crimes dos beneficiados figuram homicídio, tráfico de drogas, feminicídio e roubo. Foram identificadas 22.493 pessoas inscritas no CadÚnico (renda per capita de até meio salário-mínimo) com pelo menos uma arma de fogo, suspeita-se de uso de “laranjas” para desviar armas ao crime organizado[28]. Não houve qualquer melhoria na Segurança Pública no Brasil do governo Bolsonaro, mas sim piorou, não criando nenhuma política estruturante de combate ao crime organizado. Flávio quer repetir a política do pai de armar os grandes proprietários de terras e facilitar a circulação ilegal de armas na sociedade, favorecendo justamente o crime organizado e as milicias. O seu projeto de Estado Policial, orwelliano e fascista, é também um projeto de sociedade civil em constante estado de guerra de todos contra todos, é um projeto de “insegurança”, que tende a aumentar a violência social e o perigo para a população civil.
Considerações Finais: um plano de expropriação do futuro
Inúmeros outros pontos do Plano de Governo de Flávio Bolsonaro merecem crítica atenta e severa. O candidato pretende retomar e expandir propostas retrógradas e ineficientes para a educação, como as Escolas Cívico-Militares, o uso do método fônico, a transformação das escolas em empresas com “gestão por resultados” – política que vem adoecendo professores e funcionários das escolas no estado de São Paulo e Paraná – quer ressuscitar ao projeto Escola Sem Partido, que na verdade é a imposição da Escola do Partido Bolsonarista e ainda deixa subentendido alguma espécie de privatização do ensino básico, ao dizer que os jovens que não conseguirem vagas na escola pública poderão usar “vouchers” para entrar no ensino particular. Não diz nada sobre os Institutos Federais ou sobre as universidades brasileiras, mas declara pretender retirar a responsabilidade sobre o ensino superior do Ministério da Educação e coloca-lo no Ministério da Ciência e Técnologia. É uma proposta eivada de irracionalismo, de ojeriza as ciências humanas, a liberdade de ensino, à cultura e que pretende, tal como em tudo mais, submeter a produção de conhecimento as necessidades de lucro das grandes empresas.
Ainda promete uma reforma política que extinguirá partidos pequenos, o que é uma forma de tolher a liberdade de organização política de parte de sua oposição, principalmente os partidos pequenos da esquerda, em geral, socialistas e comunistas. Dedica toda uma sessão para uma retórica de política de vigilância para combater o feminicídio, que integra o seu plano de Estado Policial, reitera o objetivo de trazer de volta a Reforma Administrativa (PEC 32) e expressa verdadeira obsessão em digitalizar e informatizar o mais possível as funções estatais, extinguindo a maior quantidade cargos possíveis, sem pensar o quanto isso pode afetar a administração pública ou aumentar o nível de desemprego.
Apesar da imensa importância de todas essas questões, deteremos nossa crítica por aqui. Acreditamos ter tocado nos pontos mais críticos e que permitem delinear os traços essenciais do programa bolsonarista, deixando ver do que se trata o seu “projeto de Brasil”, se é que podemos usar esse termo para um plano de governo anti-nação e anti-povo. A realidade, é que com a vitória de Flávio Bolsonaro, não haverá Brasil algum. Haverá a Colônia Americana Brasileira, ou coisa que o valha, ainda que o nome oficial não seja esse.
Como procuramos demonstrar, o programa de Flávio Bolsonaro é de conteúdo fraudulento, não pode emitir uma única frase sem se contradizer na proposição seguinte. É de um nítido caráter estelionatário, sempre prometendo o contrário do que pretende fazer.
Afirma que não vai retirar direitos dos trabalhadores, mas pretende submeter a CLT a combinados particulares em cada caso, onde o direito do patrão irá se impor; declara que não irá cortar o orçamento da saúde e educação ou dos benefícios sociais como o Bolsa Família, mas faz da austeridade fiscal e do corte orçamentário público os pilares do plano de governo; promete que não irá retirar direitos do funcionário público, mas depois diz que promoverá a reforma administrativa que acabará até mesmo com a estabilidade. Indica para a diminuição dos impostos, mas não diz como sustentará então os serviços públicos e sociais.
Promete ascensão de vida, emprego e seguridade, mas descreve ações que criam e sustentam a miséria, o desemprego e a incerteza de cada dia.
É um programa que especula com os descontentamentos da população, brinca com eles para criar um jogo de ilusões, apresenta-se como defensor de um povo injustiçado e ultrajado, apenas para jogar o país à voracidade do capital financeiro, das grandes empresas estrangeiras e dos interesses econômicos e políticos dos EUA.
Flávio Bolsonaro instiga o medo dos pequenos proprietários contra a violência urbana, infla os preconceitos retrógrados das pessoas, apenas para justificar a construção de um Estado Policial cuja principal característica será o uso brutal e violento do terror contra a população proletária, principalmente negra e periférica, mas também contra os seus oponentes políticos.
A síntese do que o programa bolsonarista apresenta, em realidade, é um futuro de excepcional espoliação dos trabalhadores e de desnacionalização das riquezas e bens públicos do Brasil, cujo objetivo – além de enriquecer ainda mais os grandes capitalistas - será financiar a máquina de guerra do imperialismo estadunidense nas “guerras eternas”, isto é, na continuidade das agressões contra o Irã, na resistência do regime filo nazista ucraniano contra a Rússia, na guerra comercial e tecnológica do próprio EUA contra a China, no cerco do governo de Donald Trump contra Cuba.
Será também a preparação do terreno para um possível novo conflito militar de escala global, em que os EUA pretendem derrotar de uma vez seus principais oponentes geopolíticos para solidificar um novo período de dominação neocolonial internacional, recuperando a hegemonia que há décadas entrou em crise.
O programa de governo de Flávio Bolsonaro, assim como o é o bolsonarismo de modo geral, é a pretensão de uso do fascismo como instrumento de dominação do imperialismo estadunidense nos países da América do Sul, transformando-os em neocolônias e submetendo-os aos seus interesses.
Precisamos, assim como o herói do conto de Bram Stoker, vencer desesperadamente esse amontoado de lixo e detritos históricos, antes que sejamos devorados por eles, sofrendo o “enterro dos ratos”! A candidatura de Flávio Bolsonaro deve ser derrotada nas eleições pela candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, como forma de conter o avanço do fascismo no Brasil e, após as eleições, o proletariado brasileiro deve ser a força motriz de organização das classes subalternas para uma política de desfascistização do Brasil criando a força organizativa necessária para um verdadeiro futuro de transformações e mudanças, colocando fim aos detritos históricos da colonização, do escravismo e da exploração capitalista, que será o processo da Revolução Brasileira.
[2] Cf. TODOLÍ-SIGNES, Adrián. Labour Law and Economic Policy: How Employment Rights Improve the Economy. Hart Publishing, 2024; KEDINGER, Per. Employment Protection Legislation: Evolution, Effects, Winners and Losers. Cheltenham: Edward Elgar, 2010.
[3] COSTA, Belisa Souza; COSTA, Sueli de Souza; CINTRA, Cynthia Leonis Dias. Os possíveis impactos da reforma da legislação trabalhista na saúde do trabalhador. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, n. 16(1), p. 109-117, 2018; KREIN, José Dari. O desmonte dos direitos, as novas configurações do trabalho e o esvaziamento da ação coletiva: consequências da reforma trabalhista. Tempo Social, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 77-104, 2018;
[4] Mapa da destruição: como Bolsonaro rasgou a agenda de meio ambiente no Brasil - Observatório do Clima
[5] Cf. Fala de Flávio Bolsonaro nos EUA sobre terras raras revolta a esquerda
[6] Cf. https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/611759/CI19_JUN2023.pdf#1#1
[7] Cf. Dívida bruta do Brasil fica perto do nível antes da pandemia | Agência Brasil
[8] POROCA, Victor Lúcio. O Orçamento do combate à pandemia da Covid-19. Recife: UFPE, 2023. P. 156.
[9] Cf. Designating Cartels And Other Organizations As Foreign Terrorist Organizations And Specially Designated Global Terrorists – The White House
[10] Cf. Trump Orders Pentagon to Prepare to Target Latin American Drug Cartels - WSJ; Trump directs Pentagon to prepare options to use force against drug cartels: Officials - ABC News
[11] Cf. US war on “narco-terrorists” violates the right to life, warn UN experts after deadly vessel strike | OHCHR; U.S. destroys another alleged drug boat as Rubio defends deadly strikes, says cartels are "like a cancer" - CBS News
[12] Cf. Governo Trump recua em acusação de que Maduro chefiava cartel | G1
[13] Cf. "We are taking back our hemisphere" - Hegseth addressed the U.S. military in Cuba | УНН
[14] Cf. print | Trump may use military against drug cartels: reports | International
[15] Cf. Flávio diz que pediu a Trump classificar PCC e CV como terroristas | G1
[16] Cf. O que Bolsonaro privatizou no Brasil em 4 anos - Revista Fórum
[17] Cf. Governo arrecadou R$ 227 bi com venda de estatais e ações
[18] Cf. Conta de luz terá aumento médio de 8% em 2026, diz Aneel - 17/03/2026 - Economia - Folha
[19] Cf. Eletrobras: o preço de uma privatização e o caminho de volta à soberania energética | Senge RJ
[20] Cf. Teresa Leitão defende reintegração de concursados demitidos da Eletrobras — Senado Notícias
[21] Cf. Designating Antifa as a Domestic Terrorist Organization – The White House
[22] Cf. Invocation of the Alien Enemies Act Regarding the Invasion of The United States by Tren De Aragua – The White House
[23] Cf. Invocation of the Alien Enemies Act Regarding the Invasion of The United States by Tren De Aragua – The White House
[24] Cf. Rep. Ilhan Omar’s residence searched as part of ongoing criminal investigation, DOJ says - ABC News
[25] Cf. California Gov. Gavin Newsom says Department of Justice is investigating him, his wife - ABC News
[26] Cf. RESUMEN - Decreto 717/2025 - CENTRO NACIONAL ANTITERRORISTA | Argentina.gob.ar
[27] Cf. TCU afirma que condenados por homicídio e foragidos da polícia renovaram o registro de armas no Brasil | G1; https://portal.tcu.gov.br/data/files/4A/66/EF/75/20F27810ED256058E18818A8/armas%20_1_.pdf
[28] https://portal.tcu.gov.br/data/files/4A/66/EF/75/20F27810ED256058E18818A8/armas%20_1_.pdf
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