Flávio Bolsonaro e a internacionalização do cristofascismo
Fábio PY para a Carta Capital - É doutor em teologia pela PUC-RIO e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF.
A passagem do senador pela Celeiro Flórida evidencia a articulação entre empreendedorismo religioso e redes transnacionais ultraconservadoras
“Quando a política se converte em estética, a barbárie aprende a vestir-se de beleza”
(Walter Benjamin)
“A glória da segunda casa será maior do que a da primeira”
(Ageu 2,9)
A primeira aparição pública de Flávio Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos, após deixar o Brasil, foi em um culto evangélico. O encontro aconteceu na Celeiro Flórida Casa de Oração, em Coral Springs, região metropolitana de Miami, no domingo, 1º de novembro de 2026.
A celebração reuniu o senador, sua esposa, Fernanda, o irmão Eduardo e a cunhada Heloísa. A igreja divulgou imagens da família ao lado dos pastores José Maurício e Alice Fernandes, ligados ao Ministério Celeiro, fundado por André Fernandes. A escolha dessa comunidade permite observar como empreendedorismo religioso, teologia da prosperidade e articulações políticas transnacionais se combinam na circulação do bolsonarismo.
A conexão com André Fernandes
Antes de fundar o Ministério Celeiro, André Fernandes liderou a Igreja Batista da Lagoinha em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo. Saiu em 2025, após desentendimentos com a liderança, especialmente com André Valadão, e apoiou Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026.
O pastor também foi citado na CPMI do INSS. O deputado Rogério Correia (PT) pediu sua convocação após questionamentos sobre transferência de 200 mil reais feita pelo empresário Felipe Macedo Gomes, apontado como integrante dos Golden Boys, investigados por fraudes contra aposentados.
O requerimento solicitava esclarecimentos sobre a movimentação e possíveis relações entre instituições religiosas e o esquema. Após deixar a Lagoinha, Fernandes criou o Ministério Celeiro, com atividades presenciais e digitais.
Celeiro cristofascista da política internacional
É nesse percurso que se insere a presença dos irmãos Bolsonaro na Celeiro Flórida. A recepção ocorre em meio à tensão política e judicial provocada pela saída de Flávio do Brasil, em 27 de outubro, após determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sobre entrega de passaportes e restrição de saída do País. A Polícia Federal investiga a viagem diante da ausência de registro oficial de saída.
A participação no culto não foi apenas sociabilidade religiosa: evidenciou a circulação internacional de lideranças da direita fascistizada e o uso de espaços evangélicos para articulação política inter-fé.
Em transmissão nos Estados Unidos, em 30 de outubro, Flávio questionou princípios da democracia representativa: afirmou, sem apresentar provas, que os resultados eleitorais seriam “matematicamente impossíveis de terem ocorrido no mundo real”.
Colocou sob suspeita a legitimidade eleitoral e desqualificou instituições que, segundo ele, “estão completamente sequestradas e tomadas no nosso país”. Justificou sua permanência no exterior pela possibilidade de manifestar-se com maior liberdade e convocou apoiadores a fazer do Congresso Nacional a "nossa trincheira".
Ao anunciar que a próxima disputa presidencial poderia ocorrer antes de 2030, Flávio reforçou a mobilização política permanente e a contestação democrática. Suas declarações mobilizam mecanismos discursivos autoritários e de inspiração fascista.
Sem equipará-las automaticamente à experiência histórica do fascismo, reconhecemos estratégias que enfraquecem a confiança nas instituições, relativizam a legitimidade eleitoral e apresentam a democracia como sistema capturado por supostos “inimigos políticos".
A aproximação entre o bolsonarismo e determinados segmentos evangélicos deve ser compreendida para além de alianças eleitorais e manifestações públicas de apoio. Essas estruturas, voltadas às camadas médias e altas, mobilizam linguagens de empreendedorismo, liderança, gestão individual e prosperidade. Nesse contexto, observa-se uma composição de afetos e agenciamentos entre valores religiosos e pressupostos da "racionalidade neoliberal".
Prosperidade como benção individual
Produz-se uma expressão da teologia da prosperidade que apresenta o sucesso como resultado da agência individual, da disciplina, do empreendedorismo e da relação pessoal com o divino, articulados à política ultraconservadora. Desigualdades estruturais e determinações históricas e econômicas são deslocadas para segundo plano e convertidas em problemas de esforço, mérito, vitória com Deus ou insuficiência individual. Essa retórica aproxima a religião de uma visão empresarial, responsabiliza o sujeito por seu sucesso ou fracasso e naturaliza desigualdades.
É nessa articulação que a trajetória do Ministério Celeiro ganha dimensão política. Criado por André Fernandes após sua saída da Lagoinha Alphaville, o ministério representa menos uma ruptura do que a reorganização de práticas religiosas presentes em outros espaços ligados à prosperidade.
Sua atuação combina liderança pastoral personalista, empreendedorismo, prosperidade individual e influência política. Nesse espaço, segmentos da direita fascistizada encontram acolhimento e se aproximam de lideranças como Flávio Bolsonaro, que questiona a legitimidade eleitoral e desautoriza instituições democráticas.
Não se trata de atribuir essas posições a toda a comunidade evangélica, mas de compreender como estruturas religiosas ampliam uma “cultura política autoritária”, articulando conservadorismo moral, racionalidade neoliberal e mobilização cristã. A Celeiro Flórida mostra como o empreendedorismo religioso ultrapassa os templos e integra circuitos de influência transnacional.
A internacionalização do cristofascismo não se limita à circulação de lideranças entre países: envolve a expansão de estruturas religiosas, linguagens de prosperidade e articulações entre religião e política. A Celeiro constitui, assim, um espaço em que o cristianismo pode sustentar projetos antidemocráticos, articulando empreendedorismo religioso, racionalidade neoliberal e poder político além das fronteiras nacionais.
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