Cartas de Caio Prado Jr. e Jorge Amado a Clóvis Moura

Cartas de Caio Prado Jr. e Jorge Amado a Clóvis Moura

Por: O Poder Popular · Telegrama de Caio Prado a Clóvis Moura sobre ausência no lançamento de Rebeliões da Senzala

Genira Chagas - Assessoria de Comunicação do CEDEM, da Unesp

Em questão estava a produção e comercialização de Rebeliões da Senzala, obra que se tornaria referência


Em 1948, quando Clóvis Moura se propôs a estudar as revoltas dos escravizados contra os seus senhores, o pesquisador morava na cidade de Juazeiro, região do vale do rio São Francisco (BA). Contava, então, com 23 anos de idade e um sentimento de que o tema em mente precisava ser contado. Resolveu escrever uma carta a seu correligionário Caio Prado Jr., respeitado sociólogo e historiador, com quem compartilhou suas ideias.

Em carta datada de 8 de março de 1949, salvaguardada no fundo Clóvis Moura do Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp, gentilmente Caio Prado tentou desestimular Moura de seu intuito: “(...) Vejamos o caso concreto do assunto que você escolheu: as revoltas de escravos no Brasil. Você vive numa região onde a escravidão nunca teve grande papel. Acrescente-se a isso o fato de não encontrarem ao seu alcance fontes informativas convenientes, e a conclusão se impõe: para realizar seu trabalho, você terá que desenvolver um esforço descomunal, e ele não alcançará com certeza o nível que você espera (...)”. 

Na mesma carta Moura foi aconselhado a empreender estudos antropológicos sobre a realidade regional. “(...) Sua situação é no coração de uma das características regiões brasileiras, aliás, duplamente interessante: como sertão, e como ribeirinha de uma das grandes artérias históricas do Brasil. O que mais você quer? Basta-lhe pegar da pena e contar com toda simplicidade o que você observa à sua volta, e fornecerá a todos quantos se interessam pelas coisas brasileiras, informações preciosas (...)”.

Há de se comentar que, ao contrário do que diz o autor da carta, Bahia e Pernambuco, este último na fronteira com Juazeiro, foram centros de compra e venda de escravizados emigrados à força da África. Por isso mesmo, os arquivos públicos das regiões são depositários de farta documentação sobre o comércio de negros cativos. Não seriam esses os empecilhos para Moura. Além disso, no século XIX, a Bahia foi palco de uma dezena de insurreições de escravizados.

De fato, Moura não se deixou levar pelos conselhos do companheiro ilustre e mergulhou nos arquivos para escrever seu primeiro livro Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. Quando a obra ficou pronta, Moura enviou cópia a Caio Prado, então um dos sócios da Editora Brasiliense, sugerindo sua publicação. 

A resposta foi-lhe enviada em carta de 21 de julho de 1952, também salvaguardada no CEDEM, na qual Caio Prado fala da originalidade da obra, por tratar da luta dos escravizados, até então não realizada de maneira sistematizada. “(...) O que você apresenta e traz para o melhor conhecimento de nossa história, já é muito, e representa por certo, um ponto de partida que nos faltava, para sistematização e compreensão geral de um assunto de considerável importância para nossa historiografia, que são as lutas de classe entre escravos e senhoras. Aceite por isso minhas felicitações (...)”. Essa foi, certamente, a primeira crítica recebida por Moura sobre sua obra que se tornaria um clássico entre os trabalhos do gênero.

Contudo, apesar de compreender a importância do trabalho, Caio Prado não pode se comprometer com a publicação do livro, pois naquele momento a Brasiliense tinha como prioridade as obras de Monteiro Lobato, um dos fundadores da editora. “(...) Quanto à edição de seu trabalho, estamos ainda no ponto que tive ocasião de lhe comunicar verbalmente: A editora encontra-se com suas atividades paralisadas no que diz respeito a obras extraprograma. Estamos concentrados exclusivamente (...) nas edições de Monteiro Lobato, e daí não podemos, tão breve, desviar nossas atenções e recursos (...)”

Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas teve sua primeira edição publicada em 1959, pela pequena Edições Zumbi. Este primeiro lançamento não alcançou muito sucesso. Contudo, seguindo o conselho de seu amigo Jorge Amado, em carta de 26 de agosto de 1963, Moura buscou editoras maiores para lançar uma segunda edição. “(...) Creio que uma nova edição de ‘Rebeliões da Senzala’, lançada pela Zahar, seria excelente. A primeira edição passou meio despercebida devido ao mau lançamento (...)”.

Após empreender mais pesquisas em outros arquivos, além do Arquivo Público da Bahia, em 1972, aos 47 anos de idade, Moura lançou a segunda edição, ampliada, de seu livro. A iniciativa foi da editora Conquista, que incluiu a obra na coleção Temas Brasileiros, dedicada a abordar problemas políticos e sociais ocorridos durante o período colonial e imperial, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Rebeliões da Senzala passou à historiografia como uma obra original que mudou a forma como o escravizado era descrito. De cordial e fiel ao seu senhor, como nas obras anteriores a Rebeliões da Senzala, o cativo passou a ser entendido como rebelde, que promovia revoltas e formava quilombos. Na obra, Moura também mostra o escravizado participando dos movimentos políticos ocorridos no país até a assinatura da Lei Áurea.   

Onde pesquisar:

CEDEM
On-line: www.cedem.unesp.br
Presencial: Sede do Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp
Praça da Sé, 108, 1 andar – São Paulo (SP)
E-mail: pesquisa.cedem@unesp.br
Tel.: 11-3116-1706 
        11-3116-1712         
        11-3116-1713

💡
Acompanhe todas as mídias do nosso jornal: https://linktr.ee/jornalopoderpopular e contribua pelo Pix jornalopoderpopular@gmail.com

Compartilhe nas redes sociais

ссс