Por Laylon Morais, militante do CNMO Curitiba e do PCB no Paraná
Everyone is crying out for peace, yes
None is crying out for justice
Equal Rights – Peter Tosh
Se você acompanhou minimamente a programação das rádios ou a cena musical de Curitiba no início dos anos 2000, existe uma boa possibilidade de já ter escutado “Barca pra Ilha”, da banda curitibana Djambi. Lançada oficialmente em 2003 no álbum de mesmo nome, a música que fazia referência à Ilha do Mel se tornou uma das mais conhecidas do grupo e passou a ocupar um lugar particular na memória musical da cidade e do litoral paranaense. Entre aqueles que fizeram parte dessa história estava o músico Odivaldo Carlos da Silva, o Neno.
Ao longo dos anos, a Djambi circulou por festivais internacionais, chegou ao Montreux Jazz Festival e compartilhou programações com artistas e grupos importantes da história do reggae, como Ziggy Marley, The Skatalites, Steel Pulse e Michael Rose. Neno participou dessa trajetória como músico, cantor e compositor, permanecendo ligado ao grupo e à cena musical de Curitiba durante anos. No álbum Pode Crer, lançado em 2006, participou de letras, vocais e guitarras gravadas pela banda. Estamos falando de um trabalhador da cultura com uma trajetória construída ao longo de décadas e que já fazia parte da história musical da cidade muito antes de seu nome passar a circular por um motivo completamente diferente.
Em 22 de novembro de 2022, Neno tinha 55 anos. Por volta das 14 horas, havia acabado de almoçar e voltava para casa pela Rua Doutor Faivre, no Centro de Curitiba, quando encontrou Paulo Cezar Bezerra da Silva, então com 36 anos. Câmeras registraram parte do que ocorreu em seguida. Segundo a investigação e os relatos apresentados por Neno e por testemunhas, Paulo estava acompanhado de um cachorro e portava uma tonfa, com a qual atingiu repetidamente o músico no rosto, na cabeça, na nuca e nas pernas. O animal também teria sido estimulado a atacá-lo, e a investigação registrou ainda que o acusado carregava uma faca.
Neno teve o maxilar fraturado, perdeu um dente, sofreu cortes que exigiram pontos, apresentou lesões nos braços e nas costas e foi mordido pelo cachorro. Nos meses seguintes ainda relatava dores e problemas no olho esquerdo. Para alguém que vivia profissionalmente da música, as consequências ultrapassavam a própria integridade física: em janeiro de 2023, Neno ainda afirmava não conseguir tocar por períodos prolongados devido às dores de cabeça e encontrava dificuldades para voltar a compor. A violência atingia, portanto, também suas condições de trabalho e de reprodução material da vida, dimensão particularmente importante quando tratamos de trabalhadores da cultura frequentemente submetidos à informalidade e à ausência de mecanismos estáveis de proteção trabalhista.
Mas os golpes contam apenas uma parte do que aconteceu naquela tarde. Neno relatou ter sido chamado de “macaco” e “negro sujo”. Durante a agressão também teriam sido feitas afirmações de que pessoas em situação de rua deveriam apanhar ou morrer. Neno não estava em situação de rua. Era um homem negro voltando para casa depois do almoço. A importância desse elemento não está simplesmente numa identificação equivocada de sua condição social, mas na relação que aparece entre a ofensa racial, a associação de um corpo negro com a pobreza extrema e a própria ideia de que determinados sujeitos poderiam ser legitimamente violentados.
Isso não torna a violência mais grave porque Neno era músico ou porque possuía uma trajetória conhecida. Uma pessoa em situação de rua possuiria exatamente o mesmo direito de não ser agredida. O ponto é outro: o episódio permite observar como negritude, pobreza, marginalidade e suspeição podem aparecer reunidas numa mesma representação social. O fato de Neno ser um trabalhador da cultura reconhecido não o protegia de ser enquadrado, em outro contexto, por significados historicamente construídos sobre o corpo negro. O reconhecimento artístico e a racialização podem coexistir numa mesma sociedade; uma cidade pode conhecer músicas, consumir uma produção cultural negra e frequentar seus shows sem que isso produza automaticamente qualquer transformação nas relações raciais existentes em seu cotidiano.
Essa associação entre negritude, pobreza e marginalidade não surgiu na tarde em que Neno foi agredido. Ela faz parte de uma história mais longa da sociedade brasileira, na qual a população negra permaneceu desproporcionalmente concentrada entre os setores mais precarizados da classe trabalhadora e submetida a diferentes formas de exclusão mesmo depois do fim da escravidão. Ao longo do tempo, as próprias desigualdades produzidas por essa história passaram a alimentar representações que aproximam o negro da pobreza, da suspeição e da criminalidade. É nesse terreno social que um homem negro pode ser identificado como alguém em situação de rua antes mesmo que qualquer aspecto de sua trajetória seja conhecido.
O caso de Neno torna essa relação especialmente concreta. Durante décadas ele circulou profissionalmente pela cidade, integrou uma banda reconhecida e participou da construção de uma cena cultural importante. Nada disso impede que, numa situação determinada, sua trajetória particular seja deslocada por uma leitura racializada de seu corpo. Não é necessário imaginar que todas as pessoas negras serão tratadas da mesma forma em qualquer circunstância para reconhecer que existem representações sociais anteriores ao indivíduo e que elas interferem na maneira como determinados sujeitos são percebidos, classificados e tratados.
Em Curitiba, essa discussão possui características próprias. A capital construiu ao longo de décadas uma imagem fortemente associada ao planejamento, à organização e a uma identidade europeizada. A Curitiba negra, indígena e trabalhadora possui presença muito menor na maneira oficial como a capital costuma narrar sua própria formação. O apagamento não ocorre apenas nos livros ou monumentos; influencia também a construção simbólica de quem é reconhecido como pertencente à cidade e de quais formas de presença são vistas como sinais de desordem.
A ideia de uma cidade organizada e planejada pode, assim, funcionar como critério para definir quais formas de ocupação do espaço são consideradas legítimas. Pobres, trabalhadores informais e pessoas em situação de rua podem aparecer como elementos externos ao projeto urbano, ainda que dependam dos espaços centrais para viver e trabalhar e tenham participado historicamente da construção da própria cidade. Quando essa divisão se combina com uma estrutura racial que concentra a população negra entre os segmentos mais vulnerabilizados da classe trabalhadora, raça, classe e território deixam de ser problemas separados. O direito à cidade passa a significar concretamente quem pode circular, permanecer, trabalhar e ocupar determinados espaços sem ser permanentemente transformado em suspeito.
Há uma contradição particularmente incômoda no fato de a agressão contra Neno ter ocorrido dois dias depois do Dia da Consciência Negra. A proximidade das datas foi destacada à época por diferentes organizações e pela OAB Paraná. O reconhecimento público da cultura e da história negra é resultado de décadas de luta dos movimentos negros e não deve ser tratado como algo irrelevante. A contradição aparece quando esse reconhecimento simbólico é apresentado como suficiente para alterar relações sociais que permanecem materialmente desiguais. Curitiba podia consumir a música da Djambi, frequentar seus shows e incorporar parte daquela produção à memória cultural da cidade enquanto continuava reproduzindo relações nas quais trabalhadores negros encontravam desigualdades específicas. A valorização da produção cultural de uma população não implica necessariamente a valorização social e política das pessoas que a produzem.
As consequências da agressão também modificaram a relação de Neno com a própria cidade. Ele passou a evitar o Centro de Curitiba e relatou medo de sofrer novamente uma violência. Chegou a deixar o lugar onde estava vivendo por receio de encontrar outra vez o homem que o havia atacado e, meses depois, relatou ter sido hostilizado na rua por causa de sua aparência e de suas tranças, procurando rapidamente um espaço mais movimentado por medo de outra agressão. Em entrevistas, Neno recordou ainda situações de discriminação vividas desde a adolescência. O episódio de novembro de 2022 foi excepcional pela brutalidade, mas não foi seu primeiro contato com o racismo.
Essa continuidade é importante porque o racismo costuma ser reconhecido com maior facilidade quando alcança suas manifestações mais explícitas: uma ofensa racial, uma agressão filmada, um assassinato. Entretanto, grande parte das relações raciais se manifesta também na suspeição, nas diferenças de tratamento, nos obstáculos de acesso, no medo de determinadas abordagens e na necessidade de modificar comportamentos ou trajetos. A violência extrema não surge isolada dessa normalidade. Ela ocorre dentro de uma sociedade que já produziu maneiras de classificar, hierarquizar e atribuir valor diferente a determinadas vidas.
A maneira como a violência contra Neno foi inicialmente recebida pelas instituições públicas acrescentou outra dimensão ao episódio. Apesar das ofensas raciais relatadas, o primeiro registro tratou o caso essencialmente como lesão corporal. O acusado foi liberado naquele mesmo dia, e as manifestações racistas não constavam adequadamente do boletim inicial, sendo necessário posteriormente complementar o registro. Somente com o avanço da repercussão pública a Polícia Civil passou também a investigar a dimensão racial do ataque. O caso não basta para demonstrar sozinho um padrão institucional, mas permite colocar uma questão importante: como o racismo é reconhecido quando uma vítima negra chega às instituições responsáveis por registrar e investigar uma violência?
A resposta ao caso mudou significativamente depois que as imagens começaram a circular e movimentos, entidades e instituições passaram a acompanhar o episódio. A prisão preventiva do acusado foi decretada e, posteriormente, o Ministério Público apresentou denúncia envolvendo duas tentativas de homicídio e injúria racial, considerando também uma segunda agressão atribuída ao mesmo homem. No caso de Neno, a acusação relacionou a violência ao preconceito racial. A Justiça decidiu posteriormente que Paulo Cezar deveria ser submetido ao Tribunal do Júri, decisão mantida após recurso da defesa, que contesta a caracterização jurídica dos fatos e a dimensão racial da acusação. O julgamento está atualmente marcado para 24 de novembro de 2026, quase quatro anos depois da agressão, e ainda não existe sentença definitiva.
O percurso do caso mostra que existe uma diferença entre a existência formal de um direito e sua realização concreta. A mobilização social não substitui as instituições, mas participa historicamente da disputa sobre quais questões serão reconhecidas como problemas públicos e qual tratamento receberão. No caso de Neno, não é necessário afirmar que nada teria acontecido sem a repercussão para constatar algo mais objetivo: depois que a violência deixou de ser apenas uma ocorrência policial e passou a ser reconhecida publicamente como questão racial, o próprio tratamento institucional do episódio adquiriu outra dimensão.
Uma eventual condenação terá importância concreta para Neno, sua família e para a responsabilização individual de quem praticou a violência, caso o Tribunal do Júri reconheça a culpa do acusado. Mas nenhuma sentença será capaz de eliminar sozinha as condições que aparecem neste caso. Uma decisão judicial pode estabelecer responsabilidade por atos determinados; não modifica automaticamente a associação histórica entre negritude e criminalidade, a distribuição racial da pobreza, a forma como pessoas em situação de rua são tratadas no espaço urbano ou os mecanismos pelos quais determinados corpos são mais facilmente identificados como ameaça. Estruturas sociais não desaparecem com a condenação de um indivíduo, ainda que a responsabilização individual continue sendo uma dimensão necessária do enfrentamento da violência.
É também nesse sentido que uma perspectiva antirracista e comunista não pode escolher entre enfrentar as manifestações imediatas do racismo e compreender suas bases sociais. A população negra não pode ser convidada a aguardar uma futura transformação social para que violências concretas deixem de ser enfrentadas no presente; ao mesmo tempo, restringir a luta à punição de indivíduos, à representação simbólica ou à mudança de comportamentos significa deixar intactas relações que continuam produzindo desigualdade racial. A própria classe trabalhadora brasileira foi constituída de maneira racialmente desigual, e o racismo participa de suas divisões internas. A organização política da população negra, portanto, não se opõe a uma perspectiva de classe: permite enfrentar uma das formas concretas pelas quais essa própria classe permanece hierarquizada.
Quase quatro anos depois, o caso Neno coloca também um problema de memória. Em 2023, o músico participou da campanha “Contar para Viver, Viver para Contar”, que reuniu testemunhos de pessoas atingidas por diferentes formas de violência e intolerância. A importância dessa memória não está em transformar a agressão numa narrativa de superação, mas em impedir que o caso desapareça junto com o ciclo de notícias que momentaneamente o tornou conhecido. Essa questão encontra uma aproximação interessante na própria trajetória da Djambi. Em 2006, quando Neno ainda integrava o grupo e participava da produção de Pode Crer, a banda lançou “Resistência”, música voltada à memória da ditadura brasileira, da censura, da tortura, dos mortos, dos exilados e daqueles perseguidos por suas posições políticas. O ponto de contato aqui não é equiparar experiências históricas distintas, mas recuperar uma pergunta comum: o que acontece quando uma sociedade deixa de relacionar as violências do presente às histórias que as tornaram possíveis?
O racismo brasileiro também se beneficia desse tipo de esquecimento. A escravidão pode ser tratada como um passado distante, a abolição como encerramento suficiente da questão racial, a presença negra nas cidades pode ser apagada por narrativas oficiais e as violências atuais podem ser apresentadas como uma sequência de casos isolados. Um jovem morto numa abordagem, um trabalhador confundido com criminoso ou um músico negro espancado no Centro de Curitiba produzem indignação enquanto estão no noticiário, mas rapidamente perdem sua dimensão histórica quando deixamos de relacioná-los.
É por isso que retornar ao caso de Neno não significa fazer da agressão sua identidade. Odivaldo Carlos da Silva já possuía uma história muito antes de novembro de 2022: é músico, cantor, compositor e trabalhador da cultura, participou de uma banda que percorreu palcos dentro e fora do país e ajudou a construir parte da história do reggae curitibano. Lembrar a violência sofrida por ele significa preservar essa trajetória e, ao mesmo tempo, recusar que o ataque seja reduzido a uma ocorrência antiga ou a mais um processo criminal entre milhares.
O julgamento previsto para novembro de 2026 decidirá sobre a responsabilidade criminal do acusado. O que ele não pode encerrar são as questões sociais expostas naquela tarde: a associação entre negritude e pobreza, a criminalização dos considerados indesejáveis no espaço urbano, as desigualdades raciais que atravessam a classe trabalhadora e a disputa sobre quem é reconhecido como parte legítima da cidade. Preservar a memória do caso só possui sentido político se ajudar a tornar essas relações visíveis e a compreender que aquilo que precisa ser transformado é maior do que qualquer indivíduo que um tribunal possa absolver ou condenar.
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