Derrotar Bolsonaro no segundo turno sem abandonar a luta pela revolução
Derrotar Bolsonaro no segundo turno sem abandonar a luta pela revolução: a eleição é uma batalha, não o fim da guerra
Por Gustavo Gustavo, membro do Comitê Regional do Paraná do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira. É professor de educação infantil em Pontal do Paraná, licenciado em História e Pedagogia, e pós-graduando em Alternativas para uma Nova Educação (ANE) pela UFPR.
Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos. nada de nada. Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja, e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados.
— Carlos Marighella, O país de uma nota só
Tenho pensado bastante sobre algumas questões que atravessam nossa atuação política e, particularmente, sobre determinadas posições que venho sustentando nos debates com meus pares. Ou melhor, sobre a forma que venho debatendo. É um movimento que sempre se repete: penso, repenso, leio, debato, confronto minhas próprias conclusões com outras interpretações e retorno às mesmas questões por caminhos diferentes. Desse processo, geralmente longo, vão se formando definições, categorias e linhas de pensamento que orientaram minha leitura da realidade.
O problema é que, na ânsia de querer dizer tudo, me apresso e apresento conclusões fortes e categóricas sem conseguir mostrar todo o processo de reflexão que me levou até elas. Aquilo que, para mim já é óbvio, pois foi resultado dessas leituras, debates e contradições, chega ao interlocutor como uma afirmação isolada, uma acusação infundada ou mesmo um mero jargão, uma vez que não consegui apresentar as mediações teóricas que lhe dão sustentação.
Por isso escrevo este texto. Não para apresentar “A Verdade” sobre nada, mas para organizar e compartilhar uma dessas compreensões que venho construindo, tentando explicitar da melhor forma possível o caminho que me levou a essas conclusões.
Em casa, enquanto bebíamos e lamentávamos o resultado da apuração do primeiro turno das eleições, surgiu na discussão uma formulação presente na tradição comunista: a social-democracia como antessala do fascismo. Uma afirmação forte, muito longe de equiparar social-democratas e fascistas, tampouco de afirmar que a social-democracia deseje conscientemente produzir o fascismo. Ela significa compreender como a estratégia baseada na conciliação de classes, na preservação da ordem burguesa e na subordinação da mobilização popular à institucionalidade contribui para desarmar politicamente a classe trabalhadora diante de uma ofensiva reacionária.
E essa discussão ganha uma urgência imediata diante do segundo turno. Precisamos derrotar Bolsonaro nas urnas! É necessário convencer, mobilizar e participar da campanha vira-voto. Não vejo qualquer contradição entre essa tarefa imediata e a perspectiva revolucionária. A contradição mora na transformação de um resultado eleitoral e na defesa da democracia burguesa como o limite estratégico de nossa luta. A eleição é uma das batalhas. Precisamos vencê-la, mas não podemos perder de vista a guerra histórica pela emancipação da classe trabalhadora.
Para compreender essa formulação, podemos olhar para três experiências históricas distintas: a República de Weimar (Alemanha 1919-1933), o Chile de Salvador Allende e a Rússia de 1917. Não tenho aqui a pretensão de desenvolver toda a complexidade de nenhum desses processos, afinal, cada um deles exige um estudo próprio e apresenta contradições que não cabem neste texto. Meu objetivo é recuperar alguns elementos centrais que ajudam a pensar a relação entre institucionalidade, conciliação de classes, derrota da alternativa revolucionária e avanço da reação. Recomendo, portanto, para uma melhor compreensão, que cada uma dessas experiências seja estudada em sua totalidade, e não apenas através do recorte que faço aqui.
Na Alemanha, a Revolução de Novembro de 1918 derrubou a monarquia e abriu uma possibilidade concreta de transformação radical da sociedade. A social-democracia, entretanto, optou por conter o avanço da luta de classes e preservar a ordem existente, apostando na conciliação entre as classes e na construção de uma república parlamentar. Ao frear a radicalização revolucionária e reprimir as forças que buscavam aprofundá-la, a social-democracia contribuiu para desarticular a alternativa revolucionária e abriu espaço para que as elites econômicas, os setores conservadores e os militares se reorganizassem em torno de um projeto de contrarrevolução. A repressão à insurreição espartaquista e o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht expressam de forma brutal esse processo.
Diante de uma profunda crise econômica, do desemprego, da radicalização política e do apoio das elites ao projeto nazista, a experiência alemã demonstra como a contenção da luta de classes em nome da conciliação desarma politicamente a classe trabalhadora e cria condições para que as forças contrarrevolucionárias se fortalecem debaixo de nossos pés. O nazismo não chegou ao poder apenas por uma conspiração das elites: ele conquistou milhões de votos e tornou-se a maior força eleitoral do país, expressando também uma parcela significativa da consciência das massas produzida naquele momento. Um forte paralelo com o Brasil hoje. Como Marx sintetizou, “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”. Quando a esquerda abandona a disputa pela consciência, pela organização e pelos interesses materiais da classe trabalhadora, outras forças ocupam esse espaço e oferecem suas próprias respostas à crise.
No Chile, a Unidade Popular de Salvador Allende apresenta outra dimensão. Não se tratava simplesmente de uma experiência social-democrata, mas de uma coalizão de esquerda que pretendia avançar em direção ao socialismo ocupando as instituições existentes. Nacionalização, reforma agrária e outras reformas de base entraram em choque com os interesses das classes dominantes chilenas e do imperialismo. Esse processo enfrentou sabotagem econômica, desestabilização política e, por fim, um golpe militar em 1973. Essa experiência demonstra que a institucionalidade burguesa, ao ser utilizada como meio principal para conquistar reformas profundas, não oferece nenhuma garantia de que as classes dominantes aceitarão tal transformação que ameace seus interesses fundamentais, não há nenhum mecanismo que os impeça de atuar para desfazer todos os avanços conquistados democraticamente.
Na Rússia, houve uma situação diferente: uma janela histórica da revolução se abriu com a derrubada do czarismo, mas também corria o risco de ser rapidamente fechada com a recomposição das forças dominantes. Nesse caso, porém, a revolução não foi contida: ela avançou e conquistou o poder. A Revolução de Fevereiro de 1917 derrubou o czarismo e produziu uma situação de dualidade de poderes: de um lado, o Governo Provisório formado por burgueses, liberais, aristocratas e, posteriormente, mencheviques; de outro, os Sovietes de operários e soldados, com forte atuação dos bolcheviques. Os mencheviques e socialistas-revolucionários, majoritários nos Sovietes, optaram pela colaboração com o Governo Provisório foram absorvidos pelo mesmo, defendendo a continuidade de uma política que mantinha a ordem existente. Os bolcheviques identificaram nessa escolha o risco de perder uma possibilidade revolucionária concreta. Para Lenin, uma situação revolucionária não poderia permanecer aberta indefinidamente: se o poder não fosse transferido aos Sovietes, a correlação de forças poderia se inverter e a reação avançaria. E foi exatamente o que aconteceu após as Jornadas de Julho, quando essa tal possibilidade de uma “transição pacífica” foi encerrada e a contrarrevolução passou à ofensiva. Nos meses seguintes, os bolcheviques, atuando no interior dos Sovietes, reorganizaram suas forças e, em outubro, os bolcheviques, como vanguarda revolucionária organizada e profundamente inserida nos Sovietes, tomaram o poder. A partir daquele momento, a história do processo revolucionário russo seguiu o rumo da ditadura do proletariado, constituindo-se como a maior experiência socialista que já tivemos.
Esses três processos são diferentes, mas há uma questão comum que nos interessa: o que acontece quando uma possibilidade de transformação não consegue se converter em força política organizada da classe trabalhadora?
É nesse sentido que compreendo a social-democracia como antessala do fascismo: não por opção, mas por ocasião. Não porque deseje o fascismo, mas porque, ao buscar administrar as contradições do capitalismo sem superá-las, invariavelmente chegará um momento decisivo das crises cíclicas do capital sem uma classe trabalhadora suficientemente organizada para impedir a reação burguesa e sua tropa de choque, o fascismo.
É com essa lente que devemos olhar novamente para o Brasil. O Partido dos Trabalhadores possui uma história marcada por conquistas sociais importantes. É intelectualmente desonesto e canalha ignorá-las. Também seria incorreto negar a importância que teve na organização política da classe trabalhadora brasileira nas décadas passadas. Mas justamente por essa importância é necessário compreender a transformação que ocorreu ao longo de sua trajetória.
À medida que o PT se integrou progressivamente à institucionalidade, sua relação com o Estado, com os movimentos sociais e com a própria classe trabalhadora também se transformou. A conquista do governo federal levou a incorporação de uma parcela importante das organizações populares à lógica da governabilidade, da negociação institucional e da conciliação entre interesses de classes.
O problema, do ponto de vista que estou desenvolvendo aqui, é que essa integração não ficou restrita à participação eleitoral. Ela atingiu a própria estratégia política. O trabalho de base perdeu centralidade; a mobilização das massas foi progressivamente subordinada às necessidades da governabilidade; sindicatos e movimentos passaram a ocupar cada vez mais espaços de negociação e mediação com o Estado; instrumentos históricos de luta da classe trabalhadora foram, em muitos momentos, imobilizados, engessados ou subordinados à garantia das condições institucionais.
Não significa dizer que as organizações deixaram de lutar ou que as políticas públicas produzidas nesse período não tenham representado conquistas concretas. Significa reconhecer uma mudança de sua estratégica: a organização independente da classe trabalhadora deixou de ocupar o mesmo lugar que ocupava na construção original do projeto petista.
A institucionalização, nesse sentido, não significou simplesmente ocupar cargos ou disputar eleições. Significou uma transformação na maneira de fazer política. A subordinação da estratégia de transformação pela tática eleitoral. Quantas mobilizações populares foram deixadas de lado sob o argumento de que “não era o momento”, porque poderiam prejudicar as campanhas e candidaturas? Quantas vezes ouvimos que a mobilização do povo iria “fortalecer a direita” (sic)? Quantas greves se encerraram em acordões para garantir a governabilidade?
O Parlamento não é um espaço neutro no qual diferentes projetos disputam em condições equivalentes. Ele é parte constitutiva do Estado burguês e expressa uma correlação de forças profundamente condicionada pelo poder econômico. Ou, como diriam Marx e Engels, é o balcão de negócios da burguesia.
Quando a esquerda passou a considerar a disputa institucional como o principal instrumento de transformação, a classe trabalhadora deixou de ser sujeito político e passou a ser base eleitoral. Essa é a antessala. Foi aqui que a extrema direita cresceu solta, bem debaixo de nossos pés.
O fascismo conseguiu se apresentar como força de ruptura justamente quando a esquerda institucional passou a ser percebida como parte da ordem, como quem deveria romper com as estruturas e não o fez. A extrema direita disputa eleições, ocupa o Estado e preserva os fundamentos econômicos do capitalismo, ela é o próprio sistema, mas apresenta-se como antissistema, rebelde e capaz de romper com tudo aquilo que “não funciona”. Obviamente que seu discurso é falso, uma falácia. Mas surge uma inversão convincente: a extrema direita aparece como força de ruptura enquanto a esquerda passou a se apresentar como defensora da ordem. Uma ordem que não é dela.
O fascismo cresce, não porque as massas sejam naturalmente fascistas, mas porque a insatisfação com as condições materiais da vida foram cooptadas por uma narrativa sedutora. Quando a esquerda não conseguiu mais oferecer uma perspectiva radical de transformação, a extrema direita canalizou o descontentamento para o campo do moralismo, do autoritarismo, do (falso)nacionalismo e a construção de um bode expiatório.
Por isso entendo que o avanço da extrema direita não é um acaso eleitoral. Ele acontece em um período no qual um ciclo político se esgotou sem que outro projeto de organização e transformação da classe trabalhadora tenha conseguido se consolidar. Nesse intervalo, a extrema direita disputa não apenas o Estado, mas também as formas de consciência, os vínculos sociais, os valores, os medos e as expectativas de futuro.
O medo da violência produz demanda por segurança; a demanda por segurança é convertida em culto a autoridade; a autoridade é associada à militarização dos espaços sociais e escolares; a despolitização transforma conflitos sociais em problemas morais; e, nesse terreno, discursos religiosos, conservadores e autoritários oferecem uma interpretação para o mundo.
Sobre essa relação entre crise, produção de subjetividades, avanço da extrema direita e tarefas da esquerda, desenvolvi uma reflexão mais ampla em “Entre a Crise do Presente e os Futuros Perdidos – Coletivo Negro Minervino de Oliveira. O texto procura desenvolver justamente a ideia de que estamos diante de uma transição entre ciclos e que o problema estratégico da esquerda não pode ser reduzido à ocupação das instituições, mas passa pela reconstrução da organização popular, da consciência de classe e de uma perspectiva de futuro.
Não vou retomar aqui toda essa discussão porque ela exige sua elaboração própria. Mas considero importante indicá-la, pois a análise presente neste texto aqui faz parte daquele diagnóstico: A extrema direita não avança porque possui bons candidatos, um bom programa e consegue vencer eleições. Muito pelo contrário: apresentam candidatos da pior estirpe política, envolvidos com toda sorte de crimes, escândalos e relações com setores criminosos; tampouco possuem um programa capaz de responder às contradições concretas vividas pela classe trabalhadora. Nos debates, em vez de apresentar soluções, deslocam sistematicamente a disputa para o terreno da moral, do medo, das acusações e dos ataques pessoais. O fascismo avança porque existe um ciclo de lutas aberto, cujo projeto está em disputa, e que não conseguimos ocupar com um projeto próprio, organizado e independente da classe trabalhadora.
É nesse sentido que a derrota eleitoral de Bolsonaro, no segundo turno, precisa ser compreendida. Derrotar Bolsonaro é uma tarefa concreta e necessária. Precisamos participar da campanha, disputar votos e impedir mais uma vitória da extrema direita. Mas não podemos transformar essa necessidade em uma defesa acrítica da ordem que produz as condições para o próprio crescimento do bolsonarismo.
Precisamos vencer essa batalha eleitoral. Mas vencer a eleição não significa
vencer a guerra. Até porque, mesmo uma eventual vitória de Lula no segundo turno, não significaria que a extrema direita teria sido derrotada politicamente. O resultado do primeiro turno já demonstra os anos de trevas que enfrentaremos a partir de 2027: o PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização, e deverá iniciar 2027 com 28 senadores, tornando-se a maior bancada partidária do Senado desde a promulgação da Constituição de 1988.
Ou seja, mesmo que Lula vença a eleição presidencial, terá diante de si um Congresso profundamente reacionário com a bancada do PL com capacidade de condicionar a agenda do governo. O PL será a maior força partidária das duas Casas; na Câmara, terá 121 deputados contra 88 da federação PT-PCdoB-PV, enquanto no Senado terá 28 parlamentares contra 9 do PT.
A extrema direita continua organizada, agora com presença institucional ainda maior, bases sociais, recursos, redes de comunicação e capacidade de disputar a consciência da população. Um eventual governo Lula ficará refém de uma correlação de forças parlamentar na qual o PL e outros partidos de direita terão enorme capacidade de impor limites à sua agenda.
É justamente por isso que não podemos confundir a vitória eleitoral com a vitória histórica. Nossa tarefa é reconstruir a capacidade de organização independente da classe trabalhadora e transformar as lutas imediatas em força política capaz de disputar o poder e superar a ordem capitalista.
Teremos de engolir esse gosto amargo, mesmo com muita raiva daqueles que votam pela própria destruição e querendo cuspir em sua cara. Já atravessamos derrotas, ditaduras, massacres e perseguições e continuamos lutando. Precisamos fazer mais do que lamentar. Temos que arregaçar as mangas, organizar e lutar. Lutar para derrotar o fascismo. Lutar para construir o Poder Popular e o socialismo.
Derrotaremos Bolsonaro no segundo turno, sem arredar os pés das trincheiras. Pois, como diz nosso camarada José Paulo Netto, a luta de classes não tira férias.
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