Se Morar é Privilégio, Ocupar é Direito: Contra o Despejo da Comunidade Santo Antônio em Maringá (PR)
Prefeitura quer botar na rua 12 famílias do Jardim Novo Paulista
Por: PCB Maringá (PR)
Toda cidade vende uma imagem no cartão-postal. Em Maringá, a publicidade se apresenta com a florada dos ipês, as avenidas largas e a promessa de um lugar arborizado. Não por acaso, em maio deste ano, o município figurou entre as 20 cidades brasileiras com melhor qualidade de vida, segundo o Índice de Progresso Social (IPS Brasil).
A "cidade verde" nasce sob o mito da prosperidade, das "melhores e mais fabulosas terras para o café". Em um anúncio publicado na década de 1960, na extinta Revista Alvorada, a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, que se sagrou dona dessas bandas, apresentava-se como "A Maior Empresa Colonizadora da América do Sul". A lenda de uma cidade planejada, com terras frutíferas e que se orgulha, desde a origem, do processo de colonização.
Porém, longe do cartão-postal da Catedral e dos parques cercados pela Mata Atlântica, na periferia da cidade, mais precisamente no Jardim Novo Paulista, doze famílias vivem, neste momento, sob ameaça de despejo. Em maio deste ano, elas já haviam enfrentado a mesma situação, como mostrou uma reportagem do Maringá Post publicada naquele mesmo mês. As casas ocupadas fazem parte do Programa Habitacional de Zonas Especiais de Interesse Social (ProZeis), vinculado ao município.
O que chama atenção é que muitas dessas famílias relatam estar há dez, quinze anos na fila por uma moradia popular. Enquanto o sonho da casa própria aparece como uma promessa cada vez mais distante, a necessidade impõe outros caminhos. Já que, aparentemente, a moradia no Brasil é um direito previsto apenas para deixar a Constituição mais bonita no papel, famílias da comunidade escolheram não definhar enquanto esperam por uma fila que parece não ter fim.
Mesmo com as obras inacabadas, sem rede de esgoto, água encanada ou energia elétrica, os moradores fazem mutirão todos os dias para conseguir o mínimo de conforto em seus lares. Um tipo de solidariedade que o sistema não consegue entender, já que nasce da luta pela sobrevivência. A pergunta que fica é: se Maringá é uma das melhores cidades para se viver no Brasil, por que essas pessoas precisaram ocupar casas inacabadas?
Será porque uma das melhores cidades para se viver também tem um custo de vida elevado, estimado entre R$4.258 e R$4.477 por mês, por pessoa? Será porque é difícil encontrar um aluguel por menos de R$1.200? Porque a passagem de ônibus custa R$5,80 e a gasolina figura entre as mais caras do estado?
A resposta passa também pelos baixos salários, que não acompanham o custo de vida, pela especulação imobiliária, que encarece o acesso à moradia, e por uma política habitacional que, embora exista no papel, não tem sido capaz de atender quem espera há mais de uma década por um direito básico.
Por essa razão, a ocupação escolheu o nome de um santo numa tentativa de clamar aos céus aquilo que o capitalismo lhes nega. A Comunidade Santo Antônio é composta por cerca de 60 pessoas, muitas delas crianças, e moradores das mais diversas profissões: metalúrgico, diarista, vidraceiro, confeiteira. Pessoas que, neste momento, desejam apenas o direito de viver em paz, como escreveu o cantor chileno Victor Jara. Infelizmente, a Justiça burguesa e a Prefeitura de Maringá pretendem fazer o possível para despejar essas famílias nas ruas.
Defender a Comunidade Santo Antônio é defender uma cidade em que a moradia seja um direito, e não um privilégio para os que podem pagar. Enquanto houver famílias obrigadas a escolher entre o aluguel e o despejo, nenhum ranking de "melhores cidades" será capaz de fazer um retrato fiel de como vive a sua população, principalmente aquela que acorda antes do sol raiar para botar a cidade em pé. É nesse sentido que apelamos para que a Comunidade Santo Antônio tenha o direito de florescer junto aos ipês neste inverno.
TODA A SOLIDARIEDADE À COMUNIDADE SANTO ANTÔNIO!
PELO DIREITO À MORADIA DIGNA!
DESPEJO ZERO!
Fontes:
https://www.maringahistorica.com.br/publicacoes/4322/propaganda-da-cmnp-1962
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